Quase sempre que leio um livro de não-ficção, estou lendo algo para reforçar e refinar minhas opiniões sobre um assunto ou para desenvolver novas sobre algum tema diferente. Fazia tempo que eu não lia algo que transformava radicalmente minhas opiniões sobre algum assunto, mas foi isso que aconteceu com Terry Jones’ Barbarians.¹
O livro e documentário da BBC narram a história dos povos que interagiram com os romanos, dos gregos aos vândalos, do ponto de vista dos bárbaros. O livro detalha os vários modos como a história ocidental foi distorcida pela dependência excessiva de fontes latinas e de historiados com pressupostos espúrias. Assim, artefatos e construções celtas foram datadas como romanas porque eram mais sofisticadas, logo posteriores, logo romanas. Isso inclui centenas de minas de ouro e prata e diversas estradas na França, Alemanha e Grã-Bretanha. Na Irlanda, uma estrada de madeira do século II a. C., a Estrada de Corlea, era conhecida como “estrada dos dinamarqueses” (ou seja, dos vikings) porque ninguém imaginava que os gauleses tinham aquele nível de tecnologia.
E o retrocesso tecnológico é a parte mais impressionante. Os romanos são famosos pelos feitos de engenharia, mas Jones mostra um padrão de paralisia intelectual. Por exemplo, muitos historiadores lembram que os romanos tinham o conhecimento necessário para começar uma Revolução Industrial, mas nunca juntaram todas as peças do quebra-cabeças. Mas do ponto de vista de Barbarians, não é nenhum mistério: os romanos nunca juntavam as peças. Os gregos estavam criando motores a vapor e até metralhadoras rudimentares, mas os romanos não levaram nada adiante. E as tecnologias sociais também se perderam. Os piratas que capturaram o jovem Júlio César, por exemplo, emergiram depois que os romanos eliminaram as patrulhas gregas no Mediterrâneo. E a imobilidade social era tão grande — depois de algum tempo, em vários casos os filhos eram proibidos de não terem a mesma profissão que os pais — que a falta de inovação não pode ser surpresa.


Mas a parte que mudou minha visão sobre o mundo antigo é a comparação constante entre Roma e as civilizações contemporâneas: eu sempre imaginei que a sociedade romana era mais ou menos equivalente às vizinhas em termos de selvageria e desrespeito pela vida humana, mas Jones mostra que os romanos eram o mínimo denominador moral da Antiguidade. O assassinato em massa, o massacre público como forma de diversão e o hábito de atirar bebês indesejados em pilhas de lixo, por exemplo, não eram comuns nos arredores. As mulheres gaulesas tinham direitos que só seriam recuperados por suas descendentes inglesas depois do reinado de Vitória. Num dos momentos mais marcantes, Jones diz: “Acho que o mundo não tem muitos monumentos que celebram um genocídio, mas aqui tem um: a Coluna de Trajano“. É como se o hutus tivessem erguido um facão de mármore de 35 metros no centro de Kigali. Mussolini e colegas entendiam mais de história do que gostamos de admitir.
O livro tem seus defeitos.² A quarta parte, sobre os vândalos e hunos, se embrenha na confusão demais na política imperial dos séculos IV e V e não se aprofunda na sociedade desses povos. Segundo, Jones e alguns dos entrevistados insistem em enxertar seu esquerdismo na história. Aqui e ali, conquistas romanas são comparadas com a invasão do Iraque, algo entre desnecessário e capcioso. E o livro nunca explica exatamente como um povo intelectual e tecnologicamente inferior como os romanos conseguiu tantas vitórias e por tanto tempo. Jones depende bastante do fato que os romanos tinham o único exército profissional — “exército com um país, não vice versa”, parafraseando uma velha análise sobre o Segundo Reich. Mas nunca parece o suficiente.
Em suma: recomendo.
¹ Sim, é o Terry Jones do Monty Python. Esse não é o único livro de história ou documentário de Jones e com certeza não será o último que vou ler ou assistir.
² E o ebook tem outros defeitos. Na Kindle edition, todas as imagens estão na mesma posição que se encontram na edição de papel, a ponto de interromperem uma frase no meio. Consigo até imaginar o papel couché das fotos.