Mario Kart enquanto privilégio de classe
Este artigo do Fábio Danesi no OrdemLivre.org sobre a retaliação brasileira tem alguns problemas, mas a questão central do texto é algo que deveria ser especialmente preocupante para os leitores de esquerda: as tarifas alfandegárias do Brasil prejudicam os mais pobres desproporcionalmente. O que o Fábio não discute é que esse efeito não é apenas um problema de “os pobres têm menos dinheiro”. Sim, a falta de capital leva a situações do tipo “paga mais porque precisa parcelar” e “paga mais porque não consegue comprar em grande quantidade”, mas o que piora a situação é que os mais pobres simplesmente não conhecem gente com dinheiro.
O meu novo hábito de jogar Mario Kart e Wii Fit todos os dias é um bom exemplo. Meu Nintendo Wii foi comprado em um free shop uruguaio. Meu Mario Kart foi trazido pelos meus pais quando visitaram os EUA. O segundo controle foi trazido pelo meu padrinho, de uma viagem à China. O Wii Fit foi comprado usado de um amigo, que também o adquiriu no exterior. O resultado foi uma economia significativa, mesmo quando se considera o preço da viagem e o incômodo dos parentes e amigos que fizeram as compras. E nada disso é anômalo no meu círculo social: basta ser de uma família de classe média-alta que você acaba tendo um parente que viaja ao exterior a negócios, um amigo que se mudou para Miami, um colega de faculdade que vai fazer um estágio em Austin. Algumas pessoas mais pobres têm sorte de trabalharem em ramos que permitem acesso semelhante (patrões, chefes e clientes amigáveis que viajam), mas elas são uma parcela muito pequena dessa classe social.
Assim, tarifas alfandegárias criam o que os marxistas chamam de “privilégio de classe”. Uma leitura vebleniana de araque de “isso é assim porque daí dá para ostentar a riqueza” seria errônea, mas o fato é que as barreiras alfandegárias acabam criando mais um incentivo para que essa situação não se reverta: as elites que definem essas legislações danosas não sentem seus efeitos.
Experiência estrangeira em Porto Alegre
Hoje consegui me impressionar com a falta de conhecimento de inglês dos profissionais de serviço portoalegrenses. Esbarrei em um turista inglês no shopping (comendo no Subway porque só precisava apontar para a comida) e, por não ter mais o que fazer, comecei a ajudá-lo e a seus dois amigos irlandeses a comprar uma toalha, remédios e cerveja e a matar tempo até a saída de seu ônibus para Foz do Iguaçu.
Seria de esperar que os atendentes de lojas de roupas, farmácias e lanchonetes não falassem inglês, mas não encontrei gente que falasse inglês em uma agência de viagens ou no serviço de atendimento ao turista (que tem “Tourist Information” escrito na placa, afinal). Nessa última parada também não consegui informações sobre onde trocar dólares/euros/libras por reais. Segundo os três, a equipe do Hotel Continental (um hotel grande no centro de Porto Alegre e relativamente caro, próximo à estação rodoviária) também não falava inglês. Se eu não tivesse oferecido minha ajuda, provavelmente teriam passado uma longa tarde de frustração comunicacional.
A conclusão é que minhas habilidades como anglófono fluente não perderão sua utilidade no mercado tão cedo.
Stay Classy, Rede Globo
Os funcionários negros dentro da Rede Globo devem adorar ouvir esse tipo de coisa nos bastidores. É sempre interessante ver que, com todo o avanço do politicamente correto em todos os lugares errados, em pontos realmente importantes da sociedade (digamos, sensibilidade racial no local de trabalho), ainda há indivíduos em grandes organizações que acham que esse tipo de atitude é perfeitamente aceitável.
[Obrigado, Profeta Solon.]
P.S.: Nos comentários, levanta-se a hipótese do áudio ser falso. Creio que é genuíno, pelo seguinte motivo: é totalmente sem graça e prática. Falsificações semelhantes pecariam pelo excesso, por mais palavrões, por ridicularizações mais graves, por ofensas desnecessárias. O que o áudio revela é uma pessoa extremamente preocupada em realizar o seu trabalho. Eu posso estar enganado, obviamente. Mas isso nunca acontece. Por definição. Perguntem à minha mãe.
Cinco títulos alternativos para um texto da Folha
A Folha informa que “Nova lei dá mais benefícios a estagiário”. Mas essa me parece uma descrição pobre do que a lei de fato fará, caso sancionada. Vejamos se consigo pensar em alternativas melhores:
* Nova lei dificulta contratação de estagiários
* Nova lei reduz quantidade de estágios sendo oferecidos
* Nova lei reduz compensação monetária de estagiários
* Nova lei atrapalha vida de quem quer entrar no mercado de trabalho
* Legislação trabalhista ainda vive em mundo de fantasia, dizem especialistas
Jornalistas e economistas da platéia, alguma outra sugestão?
Adendo sobre a Lei Seca Brasileira
A redução do limite de álcool terá outro efeito perverso no futuro próximo, assim que as pessoas perceberem que suas conseqüências serão quase nulas (ou seja, que ainda moram no Brasil): quem antes beberia um ou dois copos de cerveja agora pensará “se me pararem, ter bebido um ou cinco é a mesma coisa, então por que não beber cinco?” Na margem, é possível que o consumo de álcool por parte dos motoristas aumente. Por ora, creio que um dos efeitos positivos é que as pessoas estão indo beber mais perto de casa e em locais que sabem que não passarão por blitzes no caminho de casa.
P.S.: Um esclarecimento, motivado pelo comentário do Cláudio no Gustibus: não sei se o consumo de álcool vai aumentar, apenas que pode aumentar. A maioria das pessoas pensa que os únicos efeitos da lei são que as pessoas bebem menos e que quem bebe é punido de maneira mais severa.
Quem conhece Bastiat sabe que há também o que não se vê: as pessoas vão ajustar seu comportamento na margem, de maneiras imprevisíveis e não-óbvias. Talvez elas bebam mais e bebam em casa; talvez se mudem para lugares mais perto dos seus bares favoritos; talvez passem a dormir na casa dos amigos depois do churrasco em vez de voltar para casa dirigindo; talvez bebam muito mais nas vezes que decidirem beber. A priori, é impossível saber, mas estou (a) interessado em saber o resultado dos estudos empíricos sobre o que aconteceu de fato e (b) conscientizar todo mundo que conheço sobre a existência desses efeitos imprevistos.
Único comentário necessário sobre crise política no RS
Da degradação geral da nação
Sem jamais ter assistido o programa, sei que o Ministério da Justiça está correto, mas incompleto:
O Ministério da Justiça está monitorando os programas de Tom Cavalcante na Record. O órgão acaba de reclassificar o “Show do Tom” dos sábados, já exibido após as 23h, como inadequado para antes das 21h, por expor negros, gays e mulheres a “situações degradantes”.
Não são apenas os negros, os gays e as mulheres que são expostos a “situações degradantes”. O mesmo acontece com brancos, heterossexuais e homens no programa. Telespectadores de origem asiática e indígena, pansexuais, assexuados e hermafroditas também são degradados pelo programa. Todos os produtores, anunciantes e, principalmente, telespectadores do Show do Tom são degradados pelo programa. E todo cidadão brasileiro é degradado pela situação de ter o Ministério da Justiça envolvido com o que é ou não degradante para negros, gays e homossexuais.
Como não lutar contra o MST
Sem-terra são denunciados no RS por crime contra segurança nacional:
O juiz da Vara Federal de Carazinho (RS), Felipe Veit Leal, aceitou denúncia contra oito líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) do município de Coqueiros do Sul (345 km de Porto Alegre), sob a acusação de crime contra a segurança nacional.
Os sem-terra foram denunciados pelo MPF (Ministério Público Federal) por causa de seguidas tentativas de invasão da fazenda Coqueiros. A acusação pede que eles sejam enquadrados na lei 7.170, de 14 de dezembro de 1983. A chamada “Lei de Segurança Nacional” visa coibir ações que ameacem a ordem política, social e o Estado democrático de Direito.
Não, não, não. Os líderes dos sem-terra devem ser presos e multados por formação de quadrilha, invasão de propriedade privada, furto, vandalismo, seqüestro, abuso de menores, corrupção, agressão, obstrução da justiça, calúnia e inúmeros outros crimes, delitos, contravenções, atos ilícitos, sacanagens e falcatruas, mas eles não devem ser presos por crime contra a segurança nacional. Essa é uma lei que, tal qual a lei contra apologia ao crime, deveria ser extinta. Além de injusta, a lei ainda serve para dar credibilidade a criminosos que alegam serem meros perseguidos pelos poderes estabelecidos.
Sei que alguns leitores conservadores estão pensando “eles pegaram Capone por sonegação de impostos”, mas os criminosos devem ser punidos efetivamente pelo que fizeram de errado, não apenas porque fizeram algo de errado. O processo é tão ou mais importante que os fins, exatamente pelo bem do “Estado democrático de Direito” citado nessa lei espúria.
Sobre o Direito Humano à Posse de Super-Mercados
Imagine que um grupo armado — centenas de pessoas — invade um Carrefour. Estas centenas de pessoas afirmam que pretendem tomar o Carrefour para si, com dinheiro público. Como o governo já entregou super-mercados para outros membros desse grupo antes, a ameaça não é vazia. O mesmo grupo é conhecido por roubar e destruir mercadorias de outros super-mercados que invade, usando caviar para fazer ensopado e Chateau Lafite para fazer quentão. É de surpreender que a segurança do super-mercado precise usar a força bruta contra o grupo? Alguém acharia estranho se pessoas de ambos os lados saíssem feridas, ou até mortas? Pois bem, o direito à terra é tão válido quanto o direito a super-mercados, ou a padarias, ou a clínicas veterinárias, ou a lojas de R$1,99, ou a pastelarias, ou a… bem, vocês entenderam.
É difícil saber exatamente o que aconteceu nesta fazenda em Alagoas onde nove sem-terra foram baleados. Não duvido que o fazendeiro e seus capangas tenham passado dos limites e agido muito além do que a legítima defesa da vida e da propriedade permite, mas na hora de pensar esta situação em nível macro, fica claro que a responsabilidade pelo quadro de violência no campo é quase exclusivamente de grupos como o MST. São eles que invadem, são eles que destróem, são eles que atacam a propriedade alheia. Não, nem todas as ações para se defender destas ações são legítimas, e as medidas pró-ativas se transformam rapidamente em massacres, mas os crimes por parte dos proprietários de terras são efeito, não causa, da violência rural.
(E ainda levam crianças para este tipo de situação. Nada me deixa mais enfurecido com grupos como o MST do que a presença de crianças em situações de risco. Não conheço ninguém que aprove o uso de crianças no tráfico de drogas ou para vender penduricalhos em bares noturnos, mas raramente se comenta o absurdo nível de abuso infantil que é um acampamento de sem-terras.)
Bra$iu, ou: Um post a la Nova Corja
Exército pede convites para liberar camarote em Salvador
Para liberar o funcionamento de um camarote em área da União durante o Carnaval de Salvador, o comando da 6ª Região Militar exigiu, em edital de licitação, que a empresa vencedora colocasse à disposição do Exército um espaço especial, com cobertura, para 50 pessoas (por dia), decorado, mobiliado, com serviço de copa livre com água mineral, refrigerante, cerveja, coquetéis e salgados.
O Exército também pediu –sem dar explicações à empresa vencedora– uma outra área, com capacidade para 250 pessoas. Este “camarote” especial funcionaria dentro da área militar. O outro espaço fica do lado de fora da construção, entre o Campo Grande e a praça Castro Alves (centro), o principal circuito da folia baiana.
Depois de analisar o edital, o Ministério Público Federal recomendou ao Exército a exclusão das exigências “incompatíveis com o interesse público do termo de permissão de uso para exploração de espaço da União no Carnaval”.
Segundo a Procuradoria, a montagem dos camarotes exigidos é descontada do valor final do contrato, violando os princípios administrativos da legalidade, moralidade, impessoalidade e eficiência.
O Ministério Público Federal também recomendou que, nas próximas explorações econômicas da área, em qualquer tipo de modalidade, o Exército deixe de exigir a disponibilização de convites para comercialização abaixo do valor definido pela permissionária.
A 6ª Região Militar tem cinco dias para informar ao Ministério Público as providências adotadas para o cumprimento da recomendação e três dias para justificar qual a finalidade da montagem de mais um outro camarote, com especificações definidas, “providenciando a exclusão de tal exigência caso também não esteja de acordo com o princípio da isonomia“.
Eu tirei a parte da notícia intitulada “Outro lado” porque, convenhamos, não precisa.