O professor Luis Milman agora tem um blog: luismilman.blogspot.com. Pelas categorias deste post, logo fica claro quais são os assuntos do site.
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Ei, Alan J. Sokal está lançando um livro novo. Semana que vem, quando eu voltar a ter tempo de respirar, terei que comentar sobre o assunto.
[obrigado, Elvis]
Lá no Cafeína, a Mirella reclama do abuso da palavra “literalmente”. No LanguageBar, o Emanuel defende o suposto abuso, dizendo (se resumo bem sua posição) que o conteúdo semântico da palavra “literalmente” está se transformando em um sinônimo de “mesmo” em vez de (ou melhor, além de) um antônimo de “figurativamente.
Em uma tentativa absurda de me fazer parecer moderado e desagradar ambos os lados da discussão: a Mirella está reclamando de um problema de estilo, ou seja, que não precisamos usar uma palavra pentassilábica cujo sentido primário é outro quando poderíamos dizer “mesmo”. Seu argumento não é que a frase causa confusão, como se os falantes tivessem chamado marmelos de “martelos” e martelos de “marmelos”. É uma posição prescritivista, uma afirmação sobre o que é elegante e o que é deselegante no uso da língua, à qual o Emanuel responde com o argumento descritivista sobre o que de fato é usado na prática.
Mas os dois pontos de vista não precisam estar em conflito. As afirmações “não se deve usar ‘literalmente’ no sentido de ‘mesmo’” e “muitos falantes de português brasileiro usam ‘literalmente’ no sentido de ‘mesmo’” não são mutuamente exclusivas. Pense, por exemplo, em palavrões. Dizer “esse soneto é foda” está gramaticalmente correto e é perfeitamente compreensível, mas nem por isso é algo que poderia ser usado em uma crítica para o caderno de cultura do jornal local. O modo como nos expressamos não tem importância máxima, mas também não tem importância nula.
Talvez com o tempo a palavra “literalmente” se integre tanto ao uso dos falantes de língua portuguesa brasileira que sua reprovação seja vista do mesmo modo que regras como “não comece frases com ‘mas’” ou o uso da mesóclise, a saber, arcaísmos um tanto pedantes. Por ora, “literalmente” ainda não se integrou ao estilo culto e causa estranheza a uma parcela considerável dos falantes, como demonstra o simples fato que reclamar do uso de “literalmente” é tão batido que chega a ser clichê (desculpa, Mirella, mas é verdade).
Altamente recomendado: O Porco Filósofo: 100 Experiências de Pensamento para a Vida Cotidiana. São 100 problemas filosóficos para leigos bem-educados, cada um com três páginas, variando de lógica a filosofia da mente e de epistemologia a moral. Nenhum dos temas é inédito - o atual Rei da França é calvo, zumbis e cérebros em cubas fazem suas aparições obrigatórias - mas todos são tratados de forma séria. A parte mais difícil de ler o livro é ter força de vontade para ler apenas alguns poucos textos por dia para poder de fato refletir sobre os problemas apresentados.
Alguns problemas discutidos me parecem triviais: certas questões morais podem ser resolvidas facilmente sem atentar para divisões mais profundas, e quase todas as discussões sobre direitos dos animais não passam de jogatina semântica. Mas creio que o importante neste caso é que os problemas que me parecem desinteressantes seriam exatamente os problemas favoritos para outros leitores, um mal necessário que nos cega para o fato do livro como existe representar a melhor instanciação possível de todos os livros semelhantes possíveis.*
(Em inglês, na promoção, está por 60% do preço da tradução. Foi a versão que li, na verdade, e é ainda mais recomendada. Curiosamente, segundo a Cultura, quem comprou esse livro também comprou o meu livro. Divertido.)
* Se algum leibniziano de plantão tiver uma formulação melhor para essa oração, por favor, me corrija. Quando as brincadeiras ficam muito técnicas, especialmente depois da uma da manhã, eu preciso de consultoria.
Apontamentos para uma História da Filosofia de Araque: Os culpados pela filosofia francesa em geral e o desconstrucionismo em particular são Frege, Russell, Whitehead, Wittgenstein e Quine. Estes cinco foram os grandes responsáveis por transformar a filosofia contemporânea em algo que não é para qualquer um. O resultado foi que a malta que queria estudar filosofia só para tomar café ao lado do Sena e impressionar moçoilas de axilas não-depiladas não conseguia entender o suficiente do assunto para fazer filosofia medíocre e precisou procurar uma alternativa menos custosa. Ergo, Derrida.
Entourage: Eu quero que o nome desse filme seja mudado para Medellín.
(Mas, ignorando um pouco o assunto dos vídeos: Hoje de manhã, eu pensei nos mortos. Especialmente depois de ver cartazes convidando pessoas para o “Cafofo do Osama” com a data de “11 de setembro” onde o 11 era formado por duas torres sendo partidas ao meio. Acho que vou fazer outro minuto de silêncio agora.)
O Walter está com um post longo e cheio de palavras em francês sobre a crítica habermasiana à mídia e, hm, mais um monte de coisa. Resumo para quem está com preguiça de ler:
* Habermas é comuna.
* Comunas são intelectualmente toscos.
* Habermas é intelectualmente tosco.
* Q.E.D.
Reclamações, favor reler nome do blog.
Disposto a (1) reduzir a quantidade de livros que tenho que fingir que li e (2) acabar com tudo com menos de 100 páginas na minha pilha de livros por ler, essa semana ataquei On Liberty. Enquanto eu não sou mais tão burro a ponto de comentar que um filósofo do século XIX é “extremamente atual” — na medida que presta, toda boa filosofia é ahistórica — eu ainda assim fiquei impressionado com quanto a passagem reproduzida abaixo poderia ter saído diretamente de um texto do século XXI em defesa de vouchers e testes padronizados. Com exceção, claro, das referências a Humboldt, Locke e Kant.
Em seu blog, o Walter posta uma entrevista com Alan J. Sokal para a Folha sobre Baudrillard.
(…) a adesão [de Heidegger] ao nazismo não é somente um problema de engajamento político, é um problema presente nos próprios fundamentos de sua obra. O erro (…) é fazer como Levinas e Habermas, que só pegaram os primeiros capítulo da obra principal de Heidegger, Ser e tempo (1927) e a leram aos olhos de Kierkegaard, passando a acreditar que tudo não passava de um projeto a favor da autenticidade individual, enquanto que toda a obra, abordando a questão da morte, conduz ao capítulo central sobre a Historicidade, no qual Heidegger afirma sem rodeios: “a existência autêntica somente se realiza no destino comum, na comunidade (Gemeinschaft), no povo (Volk)”. Não por acaso, (…) Volksgemeinschaft (comunidade do povo), é um dos principais conceitos nazistas.
O Walter finalmente está postando mais sobre filosofia e sobre sua tese. Neste caso, o post é sobre a relação entre e o nazismo — a velha questão se a adesão do filósofo alemão foi um erro pessoal ou se foi consistente com sua filosofia. O Walter fica (e eu o acompanho, com meu entendimento inferior do assunto) no segundo campo.
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