Enquanto vinha de táxi para o trabalho hoje descobri que o jornal O Sul gostou de um texto meu. Imagino que gostou bastante. Tanto que decidiu roubá-lo.
Assim começa o post do Alexandre Rodrigues sobre como foi plagiado pelo jornal O Sul. Espero que o jornal plagie também esse post.
A Landmark está processando a tradutora Denise Bottmann. O motivo, ao que parece, é que a Denise tem caráter para denunciar um plágio cometido pela Landmark:
A tradutora e blogueira Denise Bottmann, do site Não Gosto de Plágio, precisa de ajuda. Caçadora mais ou menos solitária de picaretas editoriais, está sendo processada pela editora Landmark, que pede ao juiz indenização mais a retirada de seu blog do ar – informa Alessandro Martins, do blog Livros e Afins. Tudo por ter denunciado que a tradução de “Persuasão”, de Jane Austen, lançada pela Landmark com a assinatura de um de seus proprietários, Fábio Cyrino, seria praticamente um xerox de uma antiga – e fraca – tradução portuguesa da lavra de Isabel Sequeira, até em seus numerosos erros. A blogueira Raquel Sallaberry, do Jane Austen em Português, também está sendo processada pela editora.
O blog da Denise é o Não Gosto de Plágio. Leiam ela. Divulguem. E nunca comprem nada da Landmark.
P.S.: Vale notar que a Denise não é a única processada; a Raquel, do Jane Austen em Português, também está sendo processada. Ela divulga um esclarecimento aqui.
Apesar de não versar sobre o mercado editorial, acho que o pessoal do Não gosto de plágio vai se interessar por essa história: Vestibular da Universidade Federal do Acre é anulado após denúncia de plágio:
O Conselho Universitário da Ufac (Universidade Federal do Acre) anulou integralmente o vestibular aplicado entre domingo (14) e segunda-feira (15) a 17.800 candidatos em seis municípios do Estado após a denúncia de plágio em questões das provas de geografia, história e português.
Em oficio encaminhado nesta sexta-feira à reitoria, o Ministério Público Federal havia recomendado o cancelamento da prova.
Segundo a Procuradoria, 15 dos 85 itens das fase objetiva eram “cópias idênticas” de questões aplicadas em vestibulares de outros Estados ou que constavam de apostilas de cursos pré-vestibulares. Todas estavam disponíveis na internet.
Até mesmo o tema da redação (”Em Terra de Cego, quem tem um olho é rei”) já havia sido proposto da mesma forma, diz o MPF, em uma vestibular da Fuvest (fundação ligada a USP). O tema e o seu enunciado constam de vários sites e livros destinados a estudantes.
Em uma parte posterior da matéria, o coordenador da comissão que organiza o vestibular diz que o plágio os deixa “constrangidos e tristes”. O que ele não diz, mas deveria, é “eu renuncio à coordenadoria”. O que eu não posso dizer é “que fato surpreendente”, porque não há caso de plágio que me surpreenda em qualquer universidade, quanto mais uma chinfrim como a UFAC.
(Esse caso também é um exemplo da burrice de muitos plagiários: quem lê um texto sobre, digamos, Walter Benjamin, provavelmente já leu outros textos sobre o mesmo autor; a probabilidade do leitor ter lido a fonte do plágio em algum momento anterior não é pequena. O mesmo vale para questões do vestibular: muita gente que vai fazer um vestibular já respondeu a diversas outras questões no mesmo modelo em um momento anterior. O plágio é mais difícil de detectar quando a fonte é obscura, mas muitos plagiários, ou pelo menos muitos dos que são pegos, surrupiam textos muito conhecidos.)
Sem citar nomes, a Academia Brasileira de Letras manifestou seu repúdio ao caso de plágio envolvendo a editora Martin Claret. Tudo muito bom, tudo muito bonito, mas o que eu quero saber é o seguinte:
* Quantos bazilhões de dólares a menos a Martin Claret vale por causa disso?
* O que a Objetiva pretende fazer com essas traduções fraudadas quando finalmente adquirir a Martin Claret?
* Considerando a natureza da profissão em geral e desse problema específico, por que o Sintra não tentou usar a ocasião para se fortalecer, em vez de deixar o caso nas mãos do grupo ad hoc liderado pela Denise Bottmann?
(Quanto à última pergunta: eu tenho pouco amor por sindicatos e menos ainda por sindicatos cujo objetivo final é quixotesco, como é o caso do Sintra. Ainda assim, essa é uma oportunidade aparentemente criada para a ação sindical. Por que o sindicato sequer tenta fazer algo? Qual aspecto do interesse próprio do sindicato eu não estou conseguindo enxergar?)
P.S.: Já o caso da Nova Cultural está esquentando, pois a Globo também entrou com uma ação judicial pedindo indenização da editora.
Para quem lembra do caso de plágio da Martin Claret sobre o qual postei em novembro, e se interessa pelo assunto, sugiro que visite http://assinado-tradutores.blogspot.com/. E que não compre livros da Martin Claret.
Quem presta um pouco de atenção no mercado editorial não se surpreendeu muito ao ler que a Martin Claret plagiou traduções de clássicos ($):
Em negociação para ter 75% de suas ações compradas pela Objetiva, braço brasileiro do poderoso grupo espanhol Santillana/Prisa, a Martin Claret é uma editora que já plagiou traduções. Os nomes dos verdadeiros tradutores foram omitidos e seus direitos, violados.
Criada nos anos 70, em São Paulo, pelo gaúcho Martin Claret, a empresa tem em seu catálogo cerca de 500 títulos de domínio público (de escritores mortos há mais de 70 anos) publicados em formato de bolso (preços de R$ 10,50 a R$ 18,90). Quatro casos de plágio estão confirmados: edições de “Os Irmãos Karamazov”, “A República”, “As Flores do Mal” e de três novelas de Franz Kafka reunidas num único volume-”A Metamorfose”, “Um Artista da Fome” e “Carta a Meu Pai”.
Lançada em 2003, a edição de “Os Irmãos Karamazov”, de Fiodor Dostoievski (1821-1881), tem como tradutor um certo Alexandre Boris Popov, que não consta entre os poucos nomes que costumam passar obras do russo para o português. Na verdade, é cópia da tradução concluída em 1944 por Boris Schnaiderman para a extinta editora Vecchi. (…)
Suspeita-se que muitos outros livros da Martin Claret usem traduções plagiadas, já que poucos e desconhecidos nomes -como Alex Marins e Jean Melville- assinam um arco eclético de títulos.
Pietro Nassetti teria traduzido Shakespeare, Maquiavel, Descartes, Rousseau, Voltaire, Schopenhauer, Balzac, Poe e outros.
“Se esse cara trabalhasse 24 horas por dia durante 60 anos, não traduziria nem a décima parte disso”, afirma o especialista Ivo Barroso.
Essa comparação entre dois artigos sobre Dante realmente pega muito mal para o autor do segundo. Muito mal. Alguém sabe se a EntreLivros se manifestou sobre isso?
Depois de ler essa notícia (”Dentista indeniza colega em R$ 10 mil por plágio de trabalho de mestrado”), ficou claro para mim o que faz o plágio de sucesso: plagiar bem pouco de múltiplos autores, de preferência mortos e famosos, para que te processar não valha a pena para nenhum deles individualmente. O dentista da matéria cometeu o erro de copiar o trabalho de uma colega conhecida, receita certa para o tipo de vendeta pessoal que o Poder Judiciário recompensa tão bem.
Quem viu o último episódio de Family Guy da temporada sabe que aquela foi uma excelente paródia de Marty McFly: confiram.
Em seu blog, o Walter posta uma entrevista com Alan J. Sokal para a Folha sobre Baudrillard.