Minha família possui uma pequena escola particular em Canoas em uma região de classe baixa e média baixa do bairro em que cresci. Boa parte dos alunos recebe bolsa da prefeitura, e acho que 90% deles estariam em escolas municipais ou estaduais se não estivessem na escola da minha família. Na verdade, sempre uso a escola de exemplo em minha defesa da privatização: já vi mães de alunos chorando ao conseguirem matricular seus filhos na escola, porque pessoas que realmente dependem de serviços públicos em seu cotidiano sabem exatamente a felicidade que é não precisar deles.
Mas não é disso que eu quero falar neste post. O ponto é que uma candidata a vice-prefeito da cidade, Beth Colombo, visitou a escola semana passada, acompanhada por uma equipe jornalística da RBS. A relação da candidata com a escola é que seus filhos estudaram lá no passado (não sei quantos, ou quanto tempo, ou há quanto tempo). Quando as imagens foram veiculadas, com minha mãe (que é diretora da escola) recebendo a candidata, o voice-over informa que a candidata Beth Colombo visitou a escola estadual em que dava aulas. Uma única frase, todas as informações erradas.
Quem entende de assuntos especializados (ciência, economia, informática, política internacional) costuma esbravejar sobre a má qualidade da cobertura da imprensa geral sobre esses assuntos. Quem possui uma visão mais refinada do modo como a imprensa funciona sabe que é muito difícil sintetizar temas complexos de maneira acessível ao grande público, e que as sutilezas e complexidades se perdem mesmo nos melhores trabalhos. Meu ponto aqui é que uma visão ainda mais refinada é que mesmo para fatos elementares — a escola é pública ou privada? a candidata já deu aula aula? — e mesmo quando o jornalista gasta mais de cinco minutos com o trabalho (a equipe no mínimo se deslocou até a escola para gravar as imagens), erros crassos e estúpidos são cometidos a torto e a direito. Essa não é uma idéia original, o que me leva a crer que não é o problema de uma situação específica, de um jornalista específico ou mesmo de uma organização jornalística específica.
Não sei o que isso significa para o papel social do jornalismo, o debate sobre o diploma, o surgimento de blogs especializados ou o vigor da democracia, mas sei que aumenta minha desconfiança de tudo que leio na imprensa, incluindo a data de publicação da edição.
(O link do vídeo está aqui. A visita da candidata à escola da minha família aparece depois de cerca de 35 segundos.)














