Pirueta Estílistica Alheia
Olha só o que é o texto de A História do Bando de Kelly, do Peter Carey. O cara escreveu um relato em primeira pessoa sobre o Ned Kelly (outra hora falo mais do rapaz) que realmente parece escrito por um bronco australiano da década de 1870. Vou pôr aqui o primeiro parágrafo para dar uma idéia da coisa:
Eu perdi meu pai aos 12 a. de idade e sei o que e é ser criado com mentiras e silêncios minha querida filha você é muito nova para entender alguma palavra do que escrevo mas esta história é para você e não vai conter uma só mentira e que eu queime no inferno se falar uma falsidade.
Depois de um tempo fica cansativo, mas não deixa de me impressionar que um escritor seja capaz de, deliberadamente, escrever assim. Estou na página 140 e ainda não encontrei uma vírgula no texto.
Recomendando Chomsky
Quem me conhece sabe que eu nunca recomendaria nada dito pelo Sr. Avram Noam Chomsky, mas leiam isso. Leiam já e recomendem para os amigos.
Boatos sobre Calvície

O autor deste blog, aos dois anos, explica ao seu irmão que não está ficando careca e tem entradas desde os 6 meses de idade.
Peão a B8
Depois de ler a autobiografia do Nabokov, entendi mais dois aspectos da obra dele: a fuga da Rússia e a Lepidopterologia. Por aquele artigo na Salon já tinha entendido as questões referentes ao irmão, que ele pouco elucida aqui. Continua um mistério, no entanto, o xadrez.
Sim, sim, entendo a beleza do balé lógico e a necessidade de profunda reflexão que oferece insights inesperados. Falta algo. Resolvi, então, montar no tabuleiro de xadrez o problema que ele nos oferece no final do capítulo XIV. Em silêncio, fui buscar o tabuleiro, para colocá-lo ao lado da minha namorada sonolenta e alternar o meu objeto de contemplação. Chegando na sala, não encontrei as peças. Apenas o tabuleiro vazio, inclinado sob uma lâmpada.
Eu suponho que poderia substituir as peças por papéis em branco, ou procurar algum programa na web que me permita montar o problema. Não, obrigado. O problema só poderia manter qualquer símile de apelo se eu usasse o velho tabuleiro onde uma vez, estupidamente, abri o jogo avançando em duas casas o peão em frente ao bispo do rei.
Freddy Kaufman
É impressão minha ou A Hora do Pesadelo 7 é um predecessor mundano de Adaptação?
Virtua Copping
Meu irmão, sábio como só ele, baixou Virtua Cop 2. Era o nosso jogo favorito no fliperama. Um com a pistola azul, o outro com a vermelha, jogávamos até o braço latejar — e então começávamos a atirar com a esquerda. Quando estávamos ficando sem ficha e um precisava ir comprar mais. Nesse instante o outro empunhava as duas armas, estilo John Woo.
P.S.: Virei! Virei! Na última vida, mas virei!
Realização Seguida de Resolução
Recomeçaram as aulas e me forço a perceber que, para alguém que é pago para estudar cinema, eu não vi filmes o suficiente. Na filmografia da disciplina de Linguagem Cinematográfica eu marquei pouquíssimos filmes. Uns doze ou treze de quarenta. Não considero todos aquele franceses metidos e japoneses obscuros um grande crime, mas minha educação fílmica tem umas lacunas imperdoáveis.
Uma delas, pelo menos, não passa deste mês. Se possível, vou tentar preencher até uma segunda. Tenho que tomar um certo nível de vergonha na cara ou meu intelecto nunca vai superar o título desse blog.
P.S.: Chego na locadora e a fita do primeiro filme foi vendido. Vou em outra locadora e não acho o segundo filme. Para me redimir, aluguei isso. Depois de meia hora assistindo o filme, desisti. Eu gosto dos atores envolvidos, mas o James Stewart não está ali em sua melhor performance, e o Henry Fonda só consegue me dar vontade de assistir de novo o seu melhor momento.
Nem Todo Menshevique era Reaça
Quem já leu Nabokov sabe que o marxismo só perdia em alfinetadas para a psicanálise na obra dele. A fortuna que ele herdara aos 17 anos foi confiscada pela Revolução Comunista aos 18. Todas as suas memórias de infância foram esmagadas no primeiro chute da bota totalitária.
Agora comecei a ler A Pessoa em Questão, a autobiografia dele, e logo no prefácio tive uma surpresa. Alguns dos capítulos tinham sido publicados na recém-falecida Partisan Review. Essa revista era marxista, fruto do Partido Comunista Americano. Achei que o velho Nabokov nunca chegaria sequer perto da revista. Ele não combinava com os autos e autores que giravam em torno da revista.
Tolice minha.
Do jeito que ensinam história para gente no colégio (e naquela extensão dele que chamam de faculdade) parece que além dos vermelhos, só tinha reacionário na Rússia Czarista. Não é bem assim, claro, mas nunca se adivinharia isso ouvindo o tipo de imbecil que costuma falar sobre esse assunto.
O pai do Nabokov foi fundador do Partido Constitucionalista Democrático. O czar mandou ele até para cadeia. Era um sinal de que o feudalismo russo estava decaindo e aquele antro de bárbaros estava, já em 1905, quase alcançando a Europa de meados do século XVIII. No capítulo III ele diz que aquela fortuna que ele herdou quando era gurizão não era causa de ressentimento — que desprezava os émigrés que só sabiam reclamar que os bolsheviques “roubaram” o dinheiro deles.
Desconfio que meu respeito pelo Nabokov vai aumentar com essa leitura.
“Oh, Diga Se Tem Algum Cheiro!”
Kilgore Trout escreveu um livro inteiro sobre um país que se dedicava a combater os odores. A finalidade nacional era essa. Não havia doenças, não havia crimes, não havia guerras e assim eles combatiam os odores. (…)
Naquele país (…) havia tremendos projetos de pesquisa dedicados ao combate dos odores. Esses projetos eram mantidos por contribuições individuais, arrecadadas por mães de família, que aos domingos iam de porta em porta. O ideal da pesquisa era encontram um desodorante químico para cada cheiro. Mas aí o herói, que também era o ditador do país, fez uma maravilhosa descoberta científica, embora não fosse cientista, e não precisou mais dos projetos. Ele foi direto à raiz do problema. (…)
Descobriu um produto químico que eliminava todos os odores?
Não, como eu disse o herói era o ditador e simplesmente eliminou os narizes.
Essa história vem direto de A Felicidade Rosewater. É o Vonnegut mais fraco que já li até hoje. Tem seus momentos.
Este é um deles.
*R*
Acabo de notar que não paro de ler livros em condições absolutamente deploráveis. O primeiro tinha uma fonte sans serif terrível. O segundo estava caindo aos pedaços. Agora estou lendo uma edição de A Felicidade Rosewater, do Vonnegut, que é uma combinação dos outros dois. As primeiras 34 páginas estão soltas do resto do livro. Eu tenho medo de abrir ele demais e ter que recolher as páginas soltas de cima da cama. Um trabalhão para ordenar.