O Gancho Invisível

Imagino que a maioria dos leitores deste blog não tem o costume de ouvir o podcast Econtalk, mas a edição desta semana deve interessar mesmo quem não gosta de Economia: uma entrevista com Peter Leeson, autor de The Invisible Hook, sobre a Economia da Pirataria. Estou fazendo campanha discreta para traduzirem; sugiro que leitores na posição de fazer o mesmo me imitem.

Ecocomics, blog de economia e quadrinhos

Via Tyler Cowen, vejo que alguém decidiu criar um blog especialmente para mim, o Ecocomics, sobre a mistura entre quadrinhos e economia.

Para quem desgosta da ideia de obras (blogs, livros, etc.) que se resumem a “[Parte da cultura pop] e a [disciplina acadêmica]”, tenho duas palavras: exemplos didáticos. Esse tipo de texto nunca será revolucionário ou pesquisa/ciência pura, mas pode ser uma ferramenta inteligente e divertida para a discussão e ensino de conceitos complexos, da tragédia dos comuns à aposta de Pascal. Não, ninguém deveria estar lendo Batman e a Filosofia no doutourado, mas posso imaginar coisas piores caindo nas mãos de um aluno de segundo grau ou jovem universitário interessado.

Colleen Hauser se entrega

Colleen Hauser se entregou para as autoridades e Daniel já está sendo atendido por médicos. Mãe e filho estavam na Califórnia, onde filmaram um curta-metragem. Não parecia provável, mas a história vai engrossar e se enfeiar ainda mais nos próximos dias.

Esse caso está conseguindo trazer à tona o pior de todos os envolvidos. Os naturopatas e ripongas de plantão estão ajudando uma pessoa mentalmente incapaz a cometer um suicídio lento e doloroso, mas os defensores da razão e da ciência também não estão fazendo por merecer estrelinhas no seu boletim. Ao contrário dos secularistas mais ferozes, não acredito que os Hauser estejam agindo por causa de religiosidade. A causa para o comportamento extremo parece ser uma mistura de incapacidade de entender a gravidade da situação, ignorância científica e trauma emocional com a morte da tia de Daniel, que sofreu muito com a quimioterapia. A decisão dos Hauser é obviamente errada, mas o tratamento que o caso recebe me deixa preocupado com as situações marginais; mesmo entre os setores mais liberais e libertários há uma disposição, até uma vontade, excessiva de ver Daniel ser tirado de sua família, sem preocupação com seu bem estar além do tratamento para o câncer.

Os direitos e deveres das crianças e de seus pais são um grande desafio para gente como eu, que defende a liberdade individual como valor máximo, mas que se preocupa com o modo como os últimos às vezes limitam exageradamente as opções dos primeiros. E quanto mais penso no caso, menos certeza tenho sobre a opção certa.

P.S.: Estou esperando há dias um post ou artigo de um libertário de peso sobre o caso. Infelizmente, o texto de Radley Balko sobre o caso na Reason apenas usa os Hauser de gancho para falar de marijuana medicinal.

O martírio de Daniel Hauser¹

Ele tem o rosto sardento, cabelo loiro e uma doença terrível que o colocou na capa dos jornais. Daniel Hauser, de treze anos de idade, sofre de Linfoma de Hodgkin, mas sua foto não está nos jornais apenas pela tragédia do câncer. A família está recusando tratamento para a doença, provocando um debate feroz sobre os direitos de pais e filhos e a separação entre Igreja e Estado nos Estados Unidos.

Daniel foi submetido a uma sessão de quimioterapia, o tratamento recomendado para a doença. A quimioterapia tem sucesso em mais de 90% dos casos de Linfoma de Hodgkin, mas seus efeitos colaterais são brutais: vômito, enjoo, diarreia, anorexia, perda de cabelo, entre outros. Depois daquela primeira e única sessão, a mãe de Daniel, Colleen Hauser, levou seu filho a todos os médicos do Minnesota que pôde, procurando algum que dissesse que ele sobreviveria sem a quimioterapia. Quando todos deram a mesma resposta, a família se voltou para os Nemenhah.

Os Nemenhah afirmam ser um grupo de seguidores das tradições dos Nativos Americanos, mas seus críticos dizem que a religião é apenas uma fachada para a promoção de supostas curas milagrosas. O líder do grupo, Phillip Landis, é um homem branco condenado em dois estados por fraudes médicas e que diz curar a Aids e o câncer com suas técnicas. A família diz pertencer à religião há dezoito anos, mas o grupo só foi fundado em 2003 e Daniel diz ter ouvido falar da religião há menos de dois anos “pelos amigos da [sua] mãe”. Os documentos que a família apresenta como provas de sua fé são vendidos pelo grupo na Internet, o que apenas aumenta as dúvidas sobre a sinceridade da fé dos Hausers.

Nos documentos entregues ao tribunal, Daniel afirma ser xamã e ancião dos Nemenhah e reafirma sua oposição à quimioterapia e seu desejo de viver uma vida virtuosa segundo sua fé. “Eu provavelmente morreria se continuasse com a químio”, disse Daniel em uma entrevista com o juiz.

Mas segundo informações da imprensa de Minnesota, Daniel é analfabeto, completamente incapaz de compreender os papéis que assinou. Outras informações indicam que pode ter deficiências cognitivas e que nem ele nem sua família entendem a gravidade da situação. Do outro lado da questão, defensores da naturopatia afirmam que o Estado está forçando Daniel a ser envenenado com quimioterapia.

A situação encontra eco em outros casos polêmicos na justiça americana. Tradicionalmente, os membros de grupos religiosos americanos recebem permissões especiais quando a lei os obriga a fazer algo que vai contra sua fé: seguidores de grupos pacifistas não são obrigados a servir nas Forças Armadas em tempo de guerra e Testemunhas de Jeová não precisam jurar à bandeira em cerimônias escolares. Os membros da seita brasileira Santo Daime recentemente conquistaram na Suprema Corte americana o direito de consumir o chá de ayahuasca, substância proibida para outros fins. Mas esse direito não é absoluto quando a questão é de interesse do estado: em um caso recente, uma policial da Filadélfia foi proibida de usar um khimar, veste tradicional muçulmana, em conjunto com seu uniforme.

Mais importante para o caso de Daniel Hauser, diversos estados americanos permitem que os cientistas cristãos recusem tratamento médico para seus filhos, apesar de alguns restringirem esse direito para casos de risco de vida, mas o Minnesota não é mais um deles desde a década de oitenta. Por outro lado, ativistas afirmam que a chamada “Establishment Clause” da Constituição, que separa Igreja e Estado, proíbe a diferenciação entre motivos religiosos e seculares. A decisão judicial também preocupa defensores do direito de privacidade, que afirmam que o Estado não tem o direito de interferir nas decisões de Anthony e Colleen Hauser sobre o tratamento do filho.

Seja qual for o motivo, está claro que nem o menino nem seus pais querem a quimioterapia, criando a possibilidade de Daniel precisar ser tirado dos pais à força e amarrado à cama para receber o tratamento. Perguntado sobre o que faria se tentassem administrar a quimioterapia a força, ele respondeu que daria socos e chutes nos médicos.

Todas essas questões seriam resolvidas na terça-feira, quando o tribunal avaliaria o testemunho de um médico sobre o último raio-X do tórax de Daniel. Mas apenas o pai do menino apareceu, informando o juiz que a esposa e o filho haviam ido embora, ninguém sabe para onde. Segundo o médico, o tumor está de volta ao tamanho que tinha antes da sessão de quimioterapia e continua a crescer. Daniel Hauser segue fugindo.

¹ O texto foi escrito para uma cadeira da faculdade, um exercício cujo enunciado era “façam uma reportagem”. Por isso os vários tiques jornalísticos, o parágrafo final, as citações apresentadas como estão e assim por diante. Obviamente, como era um texto para uma cadeira da Letras, a ser avaliado pelo estilo e não pelo trabalho jornalístico, várias atribuições estão vagas, não entrevistei especialistas, etc. Como ia entregar o texto impresso, não juntei os links para entrevistas, notícias, comentários em blogs, etc. Para os interessados, sugiro começar pelo Respectful Insolence e seguir os links.

Cavalheiros não usam acupuntura

* Preciso me render ao blog Respectful Insolence e seus longos posts sobre o horror da pseudociência. O último post, sobre mais um estudo sobre acupuntura que a mídia não entende, é tão excelente quanto os quinze posts anteriores.

* A Esquire lista os 75 filmes que todo homem deveria assistir e os 75 livros que todo homem deveria ler. Minha única desculpa é que sou jovem.

Livros de história com subtítulos grandes demais

Everyday Stalinism: Ordinary Life in Extraordinary Times: Soviet Russia in the 1930s: Não é exatamente o objetivo do livro, mas nunca encontrei um relato tão claro sobre quanto o socialismo soviético transformou a Rússia em um país de pedintes. O livro trabalha bastante com cartas de cidadãos soviéticos implorando por favores, mas mais do que isso, todo os sistema de blat, uma mistura de “pistolão” com “jeitinho”, é o retrato de uma gente que não sabe mais o que é confiança e autossuficiência. Estamos acostumados a pensar no totalitarismo como o terror permanente, mas para a grande maioria, as únicas sensações permanentes eram a humilhação e a miséria.

Longitude: A verdadeira história do gênio solitário que resolveu o maior problema científico do século XVIII: Só é possível entender o quão estranho é modo como se ensina a história da ciência quando se lê um livro como Longitude. Na escola e em parte da faculdade, ouvimos sobre as descobertas de Galileu, Newton e Halley como se todos fossem monges seculares, interessados puramente no conhecimento. Às vezes suas vidas pessoais e problemas religiosos são discutidos, mas nunca a ideia de que buscavam o conhecimento por motivos práticos. Em parte, é porque temos dificuldade em entender como a órbita das luas de Júpiter pode ter utilidade prática (e tinha), mas uma parte é que o passado é habitado por Grandes Homens, com motivações estranhas a reles mortais, não por pessoas de verdade, com ambição, ganância, orgulho. Uma pena. Seria mais fácil reconhecer a grandeza contemporânea se compreendessemos melhor os gigantes do passado.

The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable: Depois de tanto tempo ouvindo falar sobre o livro, achei que não teria muitas surpresas com a leitura. Aconteceu o mesmo com vários outros livros no passado: depois de dúzias e dúzias de entrevistas, matérias e posts, o conteúdo é quase todo conhecido antes do amontoado de papel chegar. Mas não com Taleb. O livro ainda é cheio de surpresas (e estou apenas começando). Taleb é uma exceção, um caso raro, um, hm, vocês sabem. Um Cisne Negro.

(OK, vá lá que Black Swan não é história, mas não-ficção vai tudo junto mesmo. Além disso, oh, vejam só, I.F. Stone e a KGB. Que interessante. Nada mais para olhar aqui. Run along now.)






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