Abraham Lincoln: Vampire Hunter, segundo livro de Seth Grahame-Smith (P&P&Z) é apenas medíocre. Ele não me fez entender melhor Abraham Lincoln, vampiros, escravidão, John Wilkes Booth, Stephen Douglas, William Seward, Jefferson Davis, Mary Todd, Edgar Allan Poe ou o Nawlins Antebellum; no máximo, entendi um pouco melhor o clima de pioneirismo e mobilidade social do Oeste americano (ou seja, a região próxima ao Mississippi) na primeira metade do século XIX. Quanto à narrativa em si, destaque apenas para as cenas de ação: os vampiros de Grahame-Smith esmagam cabeças e quebram ossos; seu Lincoln atira machados. A experiência com zumbis foi proveitosa e o efeito final é cinematográfico.
Minha mãe estava na sala de recuperação com outros pacientes, depois de uma cirurgia ambulatorial. Uma senhora puxou conversa:
Senhora: “O que você foi que você veio fazer?”
Mamãe: “Eu tirei um nódulo aqui das costas.”
Senhora: “É? Do quê?”
Mamãe: “Eu tenho um câncer de pele.”
Senhora: “Câncer de pele, que coisa. De que tipo?”
Mamãe: “É um melanoma.”
Senhora: “Melanoma não é aquele horrível que não tem solução e que cresce tri rápido?”
Mamãe: “É, sim, mas eu estou bem.”
Senhora: “Ai, vou te contar. Meu genro é médico e meu neto também. Eles saíram de férias e meu genro começou a passar mal, meu neto disse para a minha filha, Mãe, isso que o pai tem é grave. A gente precisa voltar para casa hoje mesmo. Fizeram o exame e ele tinha duas bolas do tamanho de uma laranja na cabeça.”
Mamãe (nervosa): “Que horror.”
Senhora: “Sim, e era um melanoma. Daí fizeram a cirurgia e não adiantava, cada vez que tiravam uma bola da cabeça dele aparecia outra. E então minha filha e meus netos foram todos no dermatologista se consultar e o médico achou um sinal no dedo do pé dela e ele acha que pode ser melanoma.”
Mamãe (enjoada com a descrição, apesar de ter tomado um Plasil logo antes): “Tu vê, que coisa.”
Senhora: “O médico acha que vai precisar amputar o dedão dela.”
Mamãe: “Pois é. Sabe que o Bob Marley, aquele cantor de reggae com o cabelo rastafári comprido morreu de melanoma, e começou pelo pé.”
Senhora: “Pois eu disse para ela minha filha, amputa o dedão, amputa o pé, amputa a perna inteira, mas deus me livre morrer do que meu genro teve, que horror.”
Mamãe (mudando de assunto): “Mas e a senhora, por que está aqui?”
Senhora: “Eu vim [esqueci completamente]. Mas tu sabe que eu fiz aqueles exames que colocam um tubo por um lado e outro pelo outro, como é que chama, a…”
Mamãe: “Endoscopia e colonoscopia.”
Senhora: “Isso, isso mesmo, e agora ninguém me tira da cabeça que foi isso que me deu diverticulite.”
Mamãe: “Não, não, que é isso. O exame não causaria diverticulite. Tem que pensar que ainda bem que achou.”
Senhora: “Tem certeza?”
Mamãe: “A senhora nunca teve tinha umas dores na barriga, antes?”
Senhora: “Agora que você mencionou, sim, eu tinha.”
Mamãe: “Pois então, eram os divertículos. Minha mãe tem diverticulite e é bastante perigoso. Meu cunhado se operou da diverticulite aqui mesmo uns meses atrás e passou vários dias internado. Ainda bem que acharam o da senhora.”
Senhora: “É mesmo?”
Mamãe: “E lá perto de casa, o dono da padaria morreu de diverticulite. Aqui mesmo neste hospital, e ele tinha só trinta e dois anos.”
Senhora: “Credo minha filha, assim tu tá me assustando!”
Mamãe (sorriso malvado): “Pois é.”
Acabo de voltar do lançamento de Cachalote, a graphic novel de Daniel Galera e Rafael Coutinho, então não posso comentar sobre a obra como um todo. Primeiras impressões:
* Por uma graphic novel de 320 páginas, desse tamanho e com papel dessa qualidade, R$45,00 é uma pechincha, mas R$36,00 na Cultura deve fazer as outras editoras processarem a Cia. das Letras por práticas anticompetitivas.
* A falta de número de páginas é incômoda e atrapalha a conversa sobre o romance. Dificulta ainda mais tentativas de postar/twittar/etc. sobre a obra durante a leitura.
* Pelo menos no começo, Cachalote é mais visual do que eu esperava de um escritor que nunca fez quadrinhos antes e que, até onde saiba, nunca foi um profundo entendedor da mídia. Grande mérito para o Coutinho no ritmo da narrativa, mas também muito mérito para o Galera por saber aproveitar as vantagens da mídia e do colaborador.
* Para quem não vê vantagem em ter livros autografados: desenhistas fazem sketches. Quem tiver a oportunidade de comparecer a um evento com os autores (o próximo é em Curitiba; ver o site do Galera) não pode perder.