Muito do que eu gostaria de dizer sobre o Gabriel foi dito melhor pelo Bruno, pelo Daniel e pelo Solon. Tenho pouco a acrescentar, mesmo porque não consigo articular nada muito complexo sobre o assunto sem nublar os olhos e ficar olhando para o vazio.
Eu conheci o Gabriel menos do que gostaria, me sentia incomodado por algumas de suas atitudes e admirava genuinamente seu entusiasmo e conhecimento por certos tópicos ultra-geek. Eu também vou lembrar para sempre daquela gargalhada semi-irônica, um som estranhamente grave saindo daquele corpo franzino. E vou me arrepender eternamente por nunca ter agradecido direito por ter sido parte do Insanus — não tanto por ter podida aumentar a seriedade do blog, que é algo transitório e trivial, mas por ter sido a primeira vez em que realmente tive que trabalhar em grupo e ser parte de algo maior. A experiência me foi mais útil, como profissional e como indivíduo, do que a simples descrição parece.
Devo ter discutido pelo menos quinze vezes com o Gabriel por que o Insanus era ou não era uma “comunidade”, termo que ele preferia para o grupo e que eu rejeitava. Discuti isso com ele na última vez em que o encontrei. Nossa conclusão, ultimamente, era que o Insanus é epifenômeno da comunidade a qual ele estava inserido. Esta semana, através do apoio mútuo, acho que esta hipótese se comprovou. Na verdade, acho que ele teria ficado muito satisfeito em ver o modo como nossos celulares, e-mails, blogs, scraps no Orkut e contas no Flickr serviram para aproximar todas as pessoas que precisavam uma das outras naquele momento. Na próxima vez que ouvir alguém falando sobre como a vida moderna e a Internet e tudo mais desumanizam as relações sociais e acabam com laços comunitários, vou espancar o pobre bastardo com a monografia do Gabriel.
Que mais, que mais? Durante o velório, não consigo deixar de pensar que o Gabriel teria descrito aquilo como “Blogueiro transforma próprio velório em flashmob”. E teria dado aquela sua gargalhada característica. Hoje uma pessoa que não conhecia ele me chamou de “palhacinho”, um termo semi-ofensivo que eu usava para descrevê-lo por causa daqueles círculos pretos sempre ao redor dos seus olhos. Eu odiei ver a Zero Hora de terça-feira dedicando tanto espaço ao acidente. Nunca gostei de matérias alarmistas sobre acidentes de trânsito, e ver meu amigo transformado em exemplo e conto de fundo moral pareceu uma terrível violação do privado pelo público. Acho que minha cópia de A Scanner Darkly ficou na biblioteca dele, e vai continuar lá. Na penúltima vez que vi o Gabriel, discutimos animadamente sobre o futuro do software e das possibilidades da computação distribuída. A seguir, ele começou a falar umas asneiras anti-americanas, e eu me irritei e fui embora do bar, fazer coisas mais divertidas. Vou sentir bastante falta daquelas discussões irritantes. Não fui a única pessoa a ter ido para o velório pensando em uma última briga com o homem: o Gabriel sabia como poucos estar espetacularmente errado sobre os mais diversos assuntos. Eu achava que ele era mais velho do que eu. Lembrei desse comentário em um post velho e, ach, me arrependi da minha aversão à fotografia, porque não tenho nenhuma foto dele para postar. Aquela risada está eternizada em algum podcast do Insanus — não baixem, gurizada, ou vocês vão querer chorar. Me tortura não saber se ele morreu na hora, ou se agonizou por algum tempo. Quero saber o que aconteceu de fato, mas quero que o resto do mundo acredite que a morte foi imediata e indolor, independentemente disso ter ou não ocorrido. Cada vez que ouço The Streets of Laredo, penso nele. E não paro de ouvir a música.
Fora isso: me sinto culpado, por dois motivos. Primeiro, por não me sentir pior, por não ter me derramado em lágrimas, por não saber extravasar. Ao ver meus amigos chorando no cemitério, senti inveja deles: eu não sei e não consigo me expressar daquele jeito. O melhor que sei fazer é servir de ombro, abraçar e segurar quem precisa. Tudo que sei fazer é ficar calado e molhar os olhos, sem deixar qualquer gota escorrer. Segundo, porque sinto que eu não mereço ser confortado pela minha perda, que minhas poucas demonostrações de luto são um pedido imerecido por atenção. Por que alguém deveria me confortar, se os pais e ex-namoradas e melhores amigos sofrem de modo tão obviamente mais profundo do que eu? É um egoísmo às avessas que não deixa de ser menos egoísta por estar às avessas, mas é o modo como reajo (mal) a esse tipo de situação.
Quando comecei a escrever este post, realmente achei que tinha pouco a acrescentar. Agora percebo que, em função do que está descrito no parágrafo acima, tenho pouca coisa coerente e unificada a dizer, ao contrário dos três links indicados acima. Mas agora vou parar de escrever sobre Gabriel, ou não descanso em paz.
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