Lá no Cafeína, a Mirella reclama do abuso da palavra “literalmente”. No LanguageBar, o Emanuel defende o suposto abuso, dizendo (se resumo bem sua posição) que o conteúdo semântico da palavra “literalmente” está se transformando em um sinônimo de “mesmo” em vez de (ou melhor, além de) um antônimo de “figurativamente.
Em uma tentativa absurda de me fazer parecer moderado e desagradar ambos os lados da discussão: a Mirella está reclamando de um problema de estilo, ou seja, que não precisamos usar uma palavra pentassilábica cujo sentido primário é outro quando poderíamos dizer “mesmo”. Seu argumento não é que a frase causa confusão, como se os falantes tivessem chamado marmelos de “martelos” e martelos de “marmelos”. É uma posição prescritivista, uma afirmação sobre o que é elegante e o que é deselegante no uso da língua, à qual o Emanuel responde com o argumento descritivista sobre o que de fato é usado na prática.
Mas os dois pontos de vista não precisam estar em conflito. As afirmações “não se deve usar ‘literalmente’ no sentido de ‘mesmo’” e “muitos falantes de português brasileiro usam ‘literalmente’ no sentido de ‘mesmo’” não são mutuamente exclusivas. Pense, por exemplo, em palavrões. Dizer “esse soneto é foda” está gramaticalmente correto e é perfeitamente compreensível, mas nem por isso é algo que poderia ser usado em uma crítica para o caderno de cultura do jornal local. O modo como nos expressamos não tem importância máxima, mas também não tem importância nula.
Talvez com o tempo a palavra “literalmente” se integre tanto ao uso dos falantes de língua portuguesa brasileira que sua reprovação seja vista do mesmo modo que regras como “não comece frases com ‘mas’” ou o uso da mesóclise, a saber, arcaísmos um tanto pedantes. Por ora, “literalmente” ainda não se integrou ao estilo culto e causa estranheza a uma parcela considerável dos falantes, como demonstra o simples fato que reclamar do uso de “literalmente” é tão batido que chega a ser clichê (desculpa, Mirella, mas é verdade).
Bônus:
* Parte do conflito aqui é que muito do ensino de lingüística moderno depende de um conflito entre descritivismo e prescritivismo que relega a posição prescritivista a um nível secundário, quando não de preconceito. Mas isso não tem razão de ser: o que é e o que deveria ser são temas de pesquisa separados, não inimigos mortais. Entendo os argumentos sobre o estigma social gerado historicamente pela posição prescritivista, mas creio que mesmo em um mundo sem estigma ainda haveria formas consideradas belas e formas consideradas feias.
* Em um comentário egocêntrico não-relacionado, sempre acho engraçado quando dois lados mais ou menos isolados da minha vida (neste caso, amigos da primeira faculdade e da segunda) se encontram. É como descobrir que sua tia teve um caso com seu professor de matemática quando você estava na quinta série.
* Imagino que essa série de posts daria uma boa aula de lingüística, especialmente para jornalistas. Sei de pelo menos uma que gostou.
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July 11th, 2008 às 20:40 pm
É, os dois pontos de vista não precisam estar em conflito mesmo. E o ensino de lingüística seria bem melhor se os professores enterrassem o “Preconceito Lingüístico” - de ambos os lados.
É que o post da Mirella não me pareceu estar apenas reclamando de um problema de estilo. Repare que ela chama atenção para o fato de que os exemplos que ela traz não foram produzidos por gente ignorante. A implicatura que ela deixa é de que o uso em questão é, ou deveria ser, característico de gente ignorante. O que descritivistas às vezes tentam demonstrar é que usos desse tipo não são fruto de ignorância, mas sim do próprio funcionamento da língua.
Eu também consideraria esses exemplos inadequados se tivessem sido escritos em um contexto que exigisse um registro mais formal e, sobretudo, conservador. Mas eles parecem ter sido falados em ambientes bem informais.
Se tivesse que prever, eu apostaria que ambos os sentidos vão conviver por mais alguns poucos séculos, cada um em seu devido lugar.
July 11th, 2008 às 21:28 pm
[…] Atualização: Olha só que legal. Meu post foi citado em outros dois, aqui e aqui. Com eles, eu descobri que a implicância com o uso do “literamente” de forma “não-literal” vem do início do século passado, entre os puristas da língua inglesa: Literally for Figuratively. “The stream was literally alive with fish.” “His eloquence literally swept the audience from its feet.” It is bad enough to exaggerate, but to affirm the truth of the exaggeration is intolerable. (item da “lista negra de falhas literárias” de “Write it Right” (1909)) […]
July 16th, 2008 às 0:30 am
[…] —Atualização: Ver o post do Filisteu e as atualizações do post do Cafeína para uma boa continuação desse assunto. […]
March 19th, 2009 às 10:08 am
[…] P.S.: Emanuel teoriza no Forma Livre. Para os menos antenados, essa é uma versão mais nerd do debate sobre prescritivismo que se manifestou em uma discussão anterior sobre o uso de literalmente. […]