Dez dicas para aproveitar melhor o OmegaT

Meus colegas de faculdade e de profissão sabem que sou um evangelista do OmegaT, uma ferramenta de memória de tradução. Confesso que comecei a usá-la porque o preço (R$0,00) era atraente, mas a experiência me ensinou que quase tudo que preciso fazer com traduções eu posso fazer com ela, e em vários casos ela é incrivelmente mais fácil que ferramentas mais famosas, como Trados e WordFast.

Seguindo o espírito evangelista, decidi colocar no papel algumas boas práticas de uso do software que imagino úteis a quem quer começar a usar o programa. No resto do post, dez dicas referentes ao uso do OmegaT (versão 1.8.0_2):

1) Aprenda a usar a ferramenta de busca. A grande vantagem de ferramentas que trabalham em plataformas independentes é que, agora que você está trabalhando com diversos arquivos ao mesmo tempo, você pode buscar termos e usos por diversos itens do mesmo projeto. Se você descobre que deveria ter usado “gestão” no lugar de “gerência”, se costuma esquecer o til ou a cedilha em palavras que terminam com “-ção” e “-ções”, se volta e meia aperta a barra de espaço duas vezes, se às vezes escreve o nome da personagem em minúsculas, não há nada melhor que a ferramenta de busca. Não é preciso aprender a usar expressões regulares, apesar da função ter seu valor.

2) As teclas de atalho são suas amigas. O movimento de levar a mão do teclado ao mouse é um desperdício. Aprenda as combinações para a função que você mais usa no menu (como “Ir para próximo segmento não traduzido” [Ctrl + U] ou “Inserir correspondência” [Ctrl + I]). Force a si mesmo a usar a combinação várias vezes. Tente aprender mais uma depois que a primeira já for automática. Lather. Rinse. Repeat.

3) Organize seus glossários em pastas. Na hora de criar um projeto, em vez de criar uma nova pasta para seus glossários e copiar para lá aqueles que pretende usar, mantenha algumas pastas que centralizam tudo, divididas como você achar melhor. Assim, você mantém apenas uma cópia dos glossários e não tem problemas com inconsistências e lacunas entre as diferentes cópias.

4) Organize suas MTs em pastas. As mesmas questões de centralização, consistência e organização discutidas para glossários valem aqui. Além delas, também destaco que esse processo permite reaproveitar decisões tomadas no passado. Um programa de memória de tradução tem seu próprio valor mesmo quando o usuário não está aproveitando memórias passadas (facilidade de revisão, estatística, coesão lexical, etc.), mas é esse aproveitamento que dá aos aplicativos todo o seu poder. Organizar e aproveitar as memórias de tradução de projetos diferentes significa menos retrabalho, o que significa mais tempo de trabalho produtivo, menos tempo de trabalho improdutivo, mais dinheiro e mais lazer.

5) Estabeleça metas. Use as estatísticas do projeto (o arquivo “project_stats.txt” na subpasta omegat do projeto para controlar quantos caracteres ou segmentos você faz em um dia. Crie um arquivo no OOo Calc ou no MS Excel para controlar seu progresso. Não, você não precisa ser obsessivo-compulsivo como eu e criar gráficos e fórmulas matemáticas complexas para manter sua disciplina. Mas ajuda.

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Retrato do tradutor quando cão de Pavlov.

6) Aperte Ctrl + T (Validar Tags) com freqüência. O programa controla se você fechou tudo que abriu e abriu tudo que fechou, mas eu considero incrivelmente tedioso ter que consertar dezenas de erros no final do projeto. Melhor usar isso como uma tarefa alternativa para quando você não quer exatamente traduzir mais outro parágrafo gigante e quer variar sem perder a produtividade.

7) Instale a verificação ortográfica, mas use apenas na fase de revisão. Na minha experiência, o verificador ortográfico afeta demais o desempenho da máquina. Quem vai usar o programa para projetos muito grandes (centenas ou milhares de segmentos, centenas de milhares de caracteres) se beneficiará mais com o uso da verificação ortográfica apenas na fase de revisão.

8) Conheça as limitações do programa e aprenda a contorná-las. Como o programa permite apenas uma tradução para o mesmo segmento, independentemente de quantas vezes ele parece. Quando o mesmo segmento precisa ser traduzido de duas maneiras diferentes (digamos, “you” como “você” e “vocês”), meu método é abrir o arquivo-fonte e colocar um asterisco ao lado de todos os segmentos que precisam seguir um modelo diferente. Esse é um exemplo de limitação do aplicativo que aprendi a contornar, e qualquer usuário que se debruce sobre o OmegaT acaba encontrando outras. O segredo aqui não é esperar um aplicativo ideal ou espernear, e sim aprender a hackear o programa. Esse meu asterisco é um hack. Reordenar tags é um hack. Faça seus próprios hacks quando o programa não colabora.

9) Seja lurker na lista de discussão do programa. É uma ótima fonte de informações sobre atualizações, problemas comuns e solução de dúvidas. Os participantes são todos, naturalmente, poliglotas, então é até possível escrever em português/espanhol/russo/alemão para os tradutores de outras línguas. A quantidade de mensagens por dia também não é muito grande. Basta clicar neste link e seguir as instruções.

10) Leia o maldito manual. Não todo, não do começo ao fim, não de uma vez só. Mas quando tiver dúvidas, abra o manual e tente entender o que está sendo dito. Um pouco de persistência e capacidade de exercitar sua interpretação de textos fazem maravilhas pela sua produtividade. Afinal de contas, se não tem nem uma nem outra, o que diabos quer com esse ramo de trabalho?

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11 Responses to Dez dicas para aproveitar melhor o OmegaT

  1. Jules says:

    Já tinha ouvido falar mas bateu a preg’s e deixei pra lá. Você atiçou a curiosidade de novo, vou testar. :)

  2. João Tortello says:

    Como faço para usar uma TM pronta?

    • Cisco Costa says:

      Ela já está pronta? Coloca o arquivo, em formato TMX, na pasta “tm” criada automaticamente pelo projeto. Se não estiver pronta, é preciso usar um alinhador, um programa que produz uma TM a partir de um texto original e sua tradução.

      • João Tortello says:

        Ah, obrigado, Cisco!
        Agora, como faço para usar a TM no projeto?
        Tenho-a pronta na pasta TM, com extensão .tmx. Só mudei a extensão do nome do arquivo criado no TRADOS. (Ou preciso salvar no TRADOS com essa extensão?

        • Cisco Costa says:

          Apenas mudar a extensão não adianta, é preciso salvar com essa extensão ou usar um conversor. Dependendo da versão que você está usando, o Trados salva em TMX. Depois é só colocar esse arquivo na pasta TM.

  3. silviasseoane says:

    Oi, será que você pode me ajudar com uma pergunta ultra básica? Estou usando o OmegaT pela primeira vez.

    Não encontro uma maneira de copiar o segmento igual ao original e seguir, e que me considere como um segmento traduzido… Por exemplo, um segmento que seja só “15 ml”, quero copiá-lo/validá-lo para que se mantenha “15 ml”. Mas não consigo, quando passo ao seguinte, continua marcado como não traduzido! Obrigada!

    • Cisco Costa says:

      Opções -> Modo de Trabalho -> Permitir que tradução seja igual ao texto fonte.

      É como eu trabalho, combinado com a opção “Deixar o segmento em branco” na mesma janela de opções. Mas só para constar, se você deixar algo como “15 mL” não traduzido, o texto original é mantido quando você cria os arquivos na pasta target.

  4. Maite says:

    Olá Cisco!

    Obrigada pelas dicas e empenho de responder as perguntas. Minha primeira vez, muito básica a pergunta. Gostaria de saber depois de criar o projeto e criar um nome para minha nova pasta, começo a tradução por segmento, ok. Mas depois que traduzi tudo, de linha em linha, vou na pasta target abrir o meu arquivo no Open Office, mas dá erro toda hora. O que seria? Preciso baixar outro arquivo com o formato adequado?

    Obrigada!

    • Cisco Costa says:

      Depende do erro. Você tenta abrir o arquivo criado na pasta target e o OpenOffice não consegue? É possível que não tenha corrigido um erro de tag. Abra o projeto e selecione Ferramentas -> Verificar Tags. Se o programa abrir uma janela mostrando algum segmento, é preciso corrigi-lo e depois mandar criar os arquivos traduzidos de novo.

  5. isabel says:

    OLá, Cisco,

    Muito obrigada pelas dicas. Estou mesmo no começo do Omegat. Com referência aos seus pontos 3 e 4, podia dizer como organizar os diferentes glossários / MTs numa pasta? Isto é, qual o caminho a seguir para criar uma pasta comum?

    Muito obrigada!

    • Cisco Costa says:

      Basicamente, eu sugiro criar uma pasta “glossários” com subpastas para as divisões que você achar relevante. Por exemplo, “finanças”, “engenharia”, etc., e depois ir guardando os arquivos de glossários nessas pastas. Na hora de criar um projeto no OmegaT, você pode escolher essa pasta-repositório ou então copia os glossários que guardou nela para a pasta “glossary” do novo projeto. E o mesmo vale para TMs.

      Então, para deixar claro, essa organização acontece pela interface normal do Windows, não pela interface do OmegaT.

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