Mario Kart enquanto privilégio de classe

Este artigo do Fábio Danesi no OrdemLivre.org sobre a retaliação brasileira tem alguns problemas, mas a questão central do texto é algo que deveria ser especialmente preocupante para os leitores de esquerda: as tarifas alfandegárias do Brasil prejudicam os mais pobres desproporcionalmente. O que o Fábio não discute é que esse efeito não é apenas um problema de “os pobres têm menos dinheiro”. Sim, a falta de capital leva a situações do tipo “paga mais porque precisa parcelar” e “paga mais porque não consegue comprar em grande quantidade”, mas o que piora a situação é que os mais pobres simplesmente não conhecem gente com dinheiro.

O meu novo hábito de jogar Mario Kart e Wii Fit todos os dias é um bom exemplo. Meu Nintendo Wii foi comprado em um free shop uruguaio. Meu Mario Kart foi trazido pelos meus pais quando visitaram os EUA. O segundo controle foi trazido pelo meu padrinho, de uma viagem à China. O Wii Fit foi comprado usado de um amigo, que também o adquiriu no exterior. O resultado foi uma economia significativa, mesmo quando se considera o preço da viagem e o incômodo dos parentes e amigos que fizeram as compras. E nada disso é anômalo no meu círculo social: basta ser de uma família de classe média-alta que você acaba tendo um parente que viaja ao exterior a negócios, um amigo que se mudou para Miami, um colega de faculdade que vai fazer um estágio em Austin. Algumas pessoas mais pobres têm sorte de trabalharem em ramos que permitem acesso semelhante (patrões, chefes e clientes amigáveis que viajam), mas elas são uma parcela muito pequena dessa classe social.

Assim, tarifas alfandegárias criam o que os marxistas chamam de “privilégio de classe”. Uma leitura vebleniana de araque de “isso é assim porque daí dá para ostentar a riqueza” seria errônea, mas o fato é que as barreiras alfandegárias acabam criando mais um incentivo para que essa situação não se reverta: as elites que definem essas legislações danosas não sentem seus efeitos.

11 comentários em “Mario Kart enquanto privilégio de classe”



  1. André Kenji:

    Discordo. A tarifação tributária no Brasil é insana e deveria ser reformulada, mas ela é menos pior em perversidade social porque tende a afetar majoritariamente artigos de luxo.

    Nos EUA, por outro lado, as alíquotas e os subsídios sobre alimentos são um peso e tanto para os pobres de lá.

  2. Cisco Costa:

    Muitos artigos que não são de luxo são afetados pelas tarifas brasileiras, mas o mais importante é que muitos se tornam artigos de luxo desnecessariamente justamente por causa da tributação.

  3. André Kenji:

    Perto do subsídios americanos para o milho e das alíquotas sobre os alimentos, isso é coisa de criança.

  4. Cisco Costa:

    Sim, subsídios agrícolas em países da OECD são muito ruins (os EUA nem são os piores; ver, por exemplo, http://agricommercialization.blogspot.com/2009/08/agricultural-subsidy-in-oecd.html) e eu estou pronto para reclamar deles eternamente. Mas a existência de males piores não significa que os menores podem ser ignorados.

  5. André Kenji:

    Claro que não. O problema é que atacar este tipo de alíquota apontando para bens como vinhos e eletrônicos é pedir para ter o argumento derrotado.

  6. Do custo dos filmes em blu-ray no Brasil:

    […] Já o texto Mario Kart enquanto privilégio de classe, do Cisco Costa, toca num ponto muito verdadeiro: só quem é pobre ou sem contatos que paga caro por eletrônicos no Brasil. Gente de classe média alta pra cima sempre tem um conhecido ou um parente que vai pro exterior e pode atravessar produtos eletrônicos pra si. No Brasil, quem compra eletrônicos nas Fnac da vida são só os que tem MUITO dinheiro e realmente não sentirão no bolso a diferença de preço ou os que tem tão pouco que precisam parcelar a compra, não podendo assim pagar a um contrabandista o valor que ele pede à vista. […]

  7. Vinícius:

    Seus Nerds. O Brasil ainda é um país cheio de miseráveis, e enquanto assim for, os supérfluos dificílmente deixarão de ser sobretaxados. Quem ajuda a manter o país assim são vocês da mídia, que colocam na cabeça do pobre que este precisa de eletrônicos, carros, grifes, etc. E ainda menosprezam com o pensamento dominante de “maldita inclusão digital”, entre outros.

    u.u

    O problema do pobre só vai acabar quando ele deixar de exitir. Heil Malthus!

  8. Leo:

    haha voce nao pode estar falando sério. Quer justificar que o imposto é “um privilégio de classe” com Wii??
    Ora não me faça rir, seu texto só prova que voce burla o sistema de importação e que voce nada conhece sobre as necessidades dos pobres de comprarem videogames de ultima geração.

  9. Marlon:

    Estava dando uma olhada no Ebay, justamente depois de ler este post, e fiquei com uma dúvida. Não é possível para nós, ao invés de pedirmos para algum parente/amigo comprar em uma viagem ao exterior, comprarmos o produto através de sites? Ou existe alguma limitação em relação a isso? Abraço

  10. Cisco Costa:

    Sim, é possível, mas nunca tentei e não sei como funciona o sistema de tarifas e o custo do frete. Ainda assim, é o tipo de coisa que depende de, no mínimo, (1) saber inglês e (2) ter cartão de crédito internacional. Na prática, mesmo que seja um pouco mais barato, ainda fica reservado à classe média e média-alta.

  11. Carlos Souza:

    Que o pobre se foda! O brasil é uma merda e tem que parar de ligar tanto pra pobre bandido e favelado.

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