Los Angeles decidiu expulsar a indústria da pornografia. E agora?

Os eleitores de Los Angeles ontem aprovaram uma coisa chamada Measure B, pela qual atores pornôs serão forçados a usar camisinha. Além disso, as produções terão que pagar uma taxa para financiar a fiscalização do uso de camisinhas. A medida foi patrocinada por grupos que lutam contra a AIDS e, creio, uma boa oportunidade para uma análise econômica amadora.

No curto prazo e na margem:

  1. Os vídeos com uso de camisinha aumentarão um pouco e o salário de todos os envolvidos (não só dos atores) cairá bastante. Duvido que a demanda por vídeos dessa natureza seja elástica, então os preços vão despencar.
  2. O mesmo fenômeno de maior oferta e salários menores vai ocorrer com a pornografia, digamos assim, afálica: lesbianismo, BDSM sem penetração, masturbação, fetiches. Tudo que puder escapar dessa lei. Mas isso depende da natureza da lei: não duvido que alguém decida fiscalizar o uso de camisinhas em cenas solo.
  3. Atores e atrizes vão aumentar seu portfólio de serviços e se concentrar naqueles que não envolvem câmeras, a saber, prostituição e strip-tease. Muitas já fazem ambos; agora mais delas vão entrar nesses ramos ou dedicar mais tempo a eles.
  4. Esses outros serviços também vão ficar mais baratos, porque a oferta cresceu de repente. Logo, dar uma festinha de arromba acaba de ficar mais acessível em LA. Só não pode filmar.
  5. O mercado negro e a produção ilegal vai aumentar em Los Angeles. Isso significa mais violência contra atrizes, menos precauções com saúde, mais fraude e mais corrupção das autoridades que deveriam fiscalizar o processo.

No médio prazo:

  1. Muitos profissionais também vão mudar para outras cidades que já têm núcleos de produção de pornografia, especialmente San Francisco e Miami. Na medida em que essas pessoas levam consigo outros serviços (strippers, prostituição, produção de vídeo), esses serviços ficarão mais competitivos nesses locais. É provável que algumas empresas de Los Angeles tentem se mudar, mas muitas vão simplesmente falir, abrindo espaço para o crescimento de empresas de outros lugares. Destruição criativa pura e simples.
  2. Devido a esse processo de destruição criativa, talvez a pornografia passe por um momento de inovação nos próximos anos. Talvez mude a estética, talvez os métodos.
  3. Outros profissionais vão se aposentar do ramo. A pornografia, por sua própria natureza, atrai profissionais jovens, mas muitos trabalhadores têm filhos, maridos, segundos empregos, escolas, vidas em Los Angeles. Essa gente não pode se mudar geograficamente e, logo, vai se mudar para o próximo degrau inferior da escala econômica.
  4. Os mesmos serviços que ficaram baratos no curto prazo vão ficar bem mais caros no longo prazo, pois a migração econômica vai destruir os poucos ganhos de escala que havia no setor. Ou seja, Hollywood, melhor organizar aquelas festas para ontem.

No longo prazo:

  1. Nada. A indústria pornográfica está passando por uma revolução de origem tecnológica. Medidas como essa são uma gota no oceano. Ela terá um efeito líquido negativo, vai piorar a vida de muita gente, especialmente mulheres, vai destruir a vida de algumas vidas, vai enriquecer alguns produtores em SF e Miami. Mas em vinte anos, talvez menos, será irrelevante para o setor enquanto tal.

Alguém sai ganhando nessa história? Os ativistas que defenderam a medida conquistaram uma certa utilidade psíquica, pois podem gritar “vencemos, vencemos”, mas o resultado vai ser mais infecções entre os profissionais do setor, não menos. Os conservadores sociais vão expulsar a pornografia da cidade; ironicamente, no paradigma bootleggers and baptists, os batistas são os contrabandistas da história.

Essa história também revela um pouco sobre a mecânica dos movimentos políticos: quando uma causa triunfa, os ativistas não se dedicam a outros problemas importantes ou à vida normal. Eles são especialistas, então passam a se dedicar a aspectos cada vez mais marginais da causa. Em vez de desviar o foco, os ativistas o estreitam, e acabam por causar mais mal do que bem.

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2 Responses to Los Angeles decidiu expulsar a indústria da pornografia. E agora?

  1. Marco Lazzarotto says:

    Fico pensando como a lei vai afetar vídeos amadores (especialmente aqueles que se vêem em sites de streaming).

    Ou na visão de grupos combativos e legisladores não existem vídeos amadores?

    • Cisco Costa says:

      Não vi os detalhes disso. Não sei como a lei interpreta a diferença entre “filmagens de Crazy Socialite Orgy Bash 14″ e “contratei uma equipe de filmagem para registrar minha orgia e talvez coloque ela no RedTube depois”. Imagino que vai ser uma mistura de processos judiciais, suborno e poder discricionário.

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