A Game of Thrones, Capítulo por Capítulo

Começando no dia 1º de janeiro, comecei minha a reler todo A Song of Ice and Fire, um capítulo por dia, como fiz da última vez. A diferença é que decidi fazer alguma pequena observação sobre cada capítulo, umas maiores, outras menores. Uns capítulos li no Kindle, outros ouvi na versão lida por Roy Dotrice. Alguns comentários serão sobre os personagens, outros sobre a adaptação da HBO. Uns serão observações triviais e irrelevantes, outros eu mentirei para mim mesmo que são investigações profundas e penetrantes sobre temas centrais do texto.

Naturalmente, Spoilers.

Prólogo (Will): Mesmo na minha terceira leitura, não consigo formar uma opinião sobre Ser Waymar Royce. Ele é jovem e arrogante, ignorando a opinião dos companheiros de classe baixa, mas também absolutamente correto em querer investigar melhor a situação. Ele está mal-preparado para a empreitada, com um cavalo grande demais e uma espada grande demais, mas também demonstra coragem e compostura no último instante. Ele ainda não absorveu o ethos meritocrático da Patrulha da Noite ou a cultura do Norte, mas o mesmo poderia ser dito dos outros jovens nobres que vemos em capítulos posteriores (Jon, Sam) e certamente age muito melhor do que os nobres sulistas que mais tarde vemos conviver com os patrulheiros (a corja em torno de Selyse, basicamente). Ele se comporta de uma maneira natural e relativamente lógica no mundo que conhece, sem saber que as regras do jogo acabam de mudar radicalmente. Will poder ter o ponto de vista, mas Ser Waymar é o prólogo de todos os capítulos que virão, não apenas do primeiro volume.

Bran I: Jon ouve o filhote albino. Ninguém mais ouve, e no resto dos livros Ghost é famoso por não emitir um som sequer. Mesmo os capítulos não fantásticos estão cheios de sinais como esse, impossíveis de perceber na primeira leitura, felizes na segunda e inevitáveis na terceira.

Catelyn I: Na série, o bosque religioso dos Stark parece um jardinzinho. Nos livros, ela tem mais de 12.000 m². Às vezes, só às vezes, fico triste que Game of Thrones não é um desenho animado.

Daenerys I: Logo no primeiro capítulo, Dany fica pensando longamente sobre escravidão e sobre a diferença entre ser uma princesa e uma escrava. E quando ela termina de pensar nisso, Illyrio aparece e a abençoa falando sobre o Lorde da Luz. Às vezes, é difícil saber o que é prólogo (Dany e a escravidão) e o que é sinal de que GRRM não tinha resolvido todos os detalhes quando publicou AGOT (Illyrio, adorador de R’hllor).

Eddard I: Ned olhando para a comitiva de Robert chegando, pensa que é um pride of bannermen, “pride” sendo o coletivo de leão. Outra expressão que aparece no capítulo: true heir, em uma história cheia de falsos herdeiros. Uma conversa sobre onde educar Robert Arryn, a primeira pista sobre o assassinato de Jon Arryn. E assim começa.

Jon I: “Quase um homem crescido”, Jon pensa sobre sua idade, quase 15 anos. Uma expressão recorrente nos capítulos de Jon, Arya, Sansa e Bran… mas rara nos personagens adultos. Sempre um dos meus toques favoritos. Mas a parte mais interessante sobre a idade de Jon é que, segundo Maester Luwin, bastardos crescem mais rápido do que filhos legítimos. Difícil saber se é uma observação típica dos bastardos westerosi (bastardos são mais saudáveis) ou específica a Jon (que pode ser um pouco mais velho do que Ned diz, pois Lyanna teria engravidado antes).

Catelyn II: Os banhos de Catelyn sempre são quentes, com água fervente. Fico imaginando quantas teorias malucas sobre “Catelyn Targaryen” não nasceram desses primeiros parágrafos. Nas teorias mais mirabolantes, evidências como a relação com o calor, a cor dos olhos e idades pressupostas sempre dependem de esquecermos de momentos como esse.

Arya I: É uma pena que a diferença de idade entre os atores que interpretam Joffrey e Robb é tão grande. A cena dos dois duelando teria sido um excelente prólogo para a Guerra dos Cinco Reis, mas a possibilidade de um confronto de igual para igual entre Madden e Gleeson teria parecido ridícula, e a insistência no confronto teria colocado Robb, não Joffrey, como o valentão. O resultado é que acho que os dois atores nunca interagem.

Bran II: Nas memórias de Bran, Maester Luwin descreve Winterfell como uma árvore de pedra monstruosa. Eu não consigo encontrar uma boa imagem, mas lembra a descrição da árvore central em Raventree Hall. Imagino que a relação não passa de uma imagem mental de GRRM que se repete. Mas a pergunta mais importante desse capítulo é a seguinte: como é que Jaime convenceu Cersei a ir até uma torre caindo aos pedaços para fazer sexo, quando o resto da parte nobre do castelo estava praticamente vazio? Ou será que foi Cersei, sempre a metade mais cautelosa do twincest, que escolheu o lugar?

Tyrion I: Por ter sido um bom irmão na infância, Tyrion perdoaria Jaime por quase tudo, explica o texto. É uma daquelas passagens que dá vontade de analisar cada versão do manuscrito original, para descobrir se a verdade sobre Tysha e a resolução de Storm estava marcada desde cedo.

Jon II: Arya queria que Jon a acompanhasse até a capital. “Estradas diferentes às vezes levam até o mesmo lugar”. A ideia de Jon como rei aparece e reaparece para quem sabe o que procurar. É a famosa tendência de confirmação.

Daenerys II: “O dragão não pede esmolas”, diz o Rei Mendigo.

Eddard II: Um pedaço da história de Ser Jorah que nunca entendo: o que um negociante de escravos estava fazendo na Ilha dos Ursos? Mesmo que ele tivesse parado em Oldtown, Lannisport e Pyke, tem talvez um castelo entre esses o arquipélago e a ilha. Que um tyroshi oportunista tentasse comprar escravos no caminho, eu não duvido. O que duvido é que valesse a pena viajar até lá. É só olhar o mapa.

Tyrion II: Jon Snow vai até a muralha acompanhado pelo tio. E por Benjen Stark. Sim, eu acho que Tyrion não é filho biológico de Tywin, mas de Aerys II Targaryen. Motivos: (1) o cabelo dele é mais pálido, diferente do loiro dourado de Jaime e Cersei, sugerindo o platinado de Valyria; (2) os olhos de duas cores ocorrem em apenas um outro personagem, uma bastarda de Aegon IV; (3) Joanna Lannister passou bastante tempo na corte enquanto Tywin era Mão do Rei e, segundo Ser Barristan, era alvo da paixão de Aerys II, que tomou liberdades durante o casamento dos Lannister; (4) Tyrion gosta de sua comida queimada, como um dragão, uma dica sutil entre muitas; (5) os Targaryen têm um histórico de partos difíceis, incluindo Daenerys, Jon Snow e Rhaenyra Targaryen, e Joanna morreu dando à luz; (6) Tyrion é fascinado por dragões, mais do que qualquer outro personagem; (7) Três Cabeças Têm o Dragão, o que para mim sugere que os três cavaleiros dos dragões estão entre os protagonistas do primeiro livro que não são puramente Starks (pois GRRM pretendia contar toda a história usando apenas os pontos de vista dos personagens do primeiro livro). Assim, Tyrion é meio-irmão de Dany e tio de Jon.

Catelyn III: Além da tentativa de assassinato, o capítulo marca a transformação de Robb em lorde. Entre as coisas que ele faz no capítulo: brandir a espada desnecessariamente. Mau sinal.

Sansa I: Um dos temas de discussão em sites sobre ASOIAF é quais personagens ganharam ou perderam com a adaptação, no sentido de se tornarem mais populares, compreendidos ou interessantes. Sansa é alvo frequente desses debates, mas os personagens secundários são casos ainda mais interessantes. Este capítulo sugere que Septa Mordane merece entrar na conversa. Aqui e nas cenas anteriores, ela parece apenas uma tutora chata e pomposa, um marco para o leitor sobre o que significa ser uma dama em Westeros. Na série, ela ganha uma certa nobreza. Todas as vezes em que ela aparece, eu lembro da expressão no rosto da atriz quando ela vai ser assassinada pelos guardas, um estoicismo absoluto que não é superado em nenhuma outra das muitas, muitas, muitas cenas de morte de personagens.

Eddard III: Há quem aguarde ansiosamente pelo reencontro de Arya e Nymeria, separadas neste capítulo, mas eu imagino que a loba seja um tipo diferente de Arma de Chekhov: a que não dispara. Ou melhor, a que já disparou quando o corpo de Catelyn foi arrastado para fora do Tridente e agora está caída em um canto do proscênio, sendo chutada pelos atores de quando em quando.

Bran III: O capítulo mais curto de toda a série, e provavelmente o mais enigmático também. Um editor inferior teria cortado, já que é alvo fácil para a acusação infame de “nada acontece”. Bendito seja o gosto americano por romances-calhamaços.

Catelyn IV: Na voz do Roy Dotrice, o capitão tyroshi que leva Cat à capital parece eternamente preso no dia 19 de setembro. E o jeito como ele pronuncia “Petyr” (“ptáir”) não é menos engraçado.

Jon III: Ser Alliser Thorne é um caso de personagem que ao mesmo tempo saiu ganhando e perdendo com a adaptação. Ganhando, porque Owen Teale retrata alguém mais castigado pelo inverno, provavelmente o primeiro personagem duradouro para quem os efeitos não-Elfos-de-Gelo-Assassinos do inverno realmente se apresentam para o leitor (lembre-se que Gared ainda tem suas orelhas no prólogo filmado). Perdendo, porque na série nunca aprendemos o porquê dele estar na Muralha. Ser Alliser está lá por causa dos Lannister e dos Stark, por ter defendido os Targaryen até o fim, então odiar Jon e Tyrion é absolutamente natural. E, como os fãs não cansam de apontar, absolutamente irônico. R + L = J, fonte eterna de diversão.

Eddard IV: Em um único parágrafo, Ned demonstra por que é um grande general e um péssimo político: contata três de seus vassalos mais leais, reforça defesas em um ponto estratégico, instrui a preparação do principal centro urbano e… acha que poderia contar com a frota dos Greyjoy só por ter Theon de refém.

Tyrion III: “E eu vi formas mais sombrias em meus sonhos”. Lorde Mormont tinha olhos verdes? Mas, mais importante, uma das teorias sobre quando Dany voará para Westeros é que os selvagens escravizados em Hardhome terão histórias sobre zumbis e elfos de gelo. Se Tyrion estiver com ela a essa altura, fico imaginando se ele lembrará dessa conversa e participará da decisão.

Arya II: Syrio! Esse é o capítulo que sempre me faz pensar que “Lições de Administração de Eddard Stark” deveria ser um best seller em Westeros. Ou pelo menos “STARK, Eddard. Introdução à Gestão de Recursos Humanos”.

Daenerys III: Ser Jorah diz que houve reis piores do que o príncipe Viserys teria sido, mas não muitos. Repassando os reis de Westeros, é difícil pensar em quais realmente seriam tão ruins. Mantendo-se apenas com aqueles que de fato reinaram em King’s Landing, somente a incompetência cruel dupla de Rhaenyra e Aegon II chegaria perto de se equiparar. Daeron I e Baelor eram tolos, mas tinham o futuro Viserys II como Mão. Aegon IV era corrupto e Aerys I desinteressado, mas nenhum dos dois havia perdido o cara-ou-coroa da sanidade Targaryen. Há quem despreze Robert, e ele tinha seus defeitos como homem e como rei, mas não todos os defeitos. Joffrey seria o par óbvio para Viserys, mas a essa altura ele é apenas o herdeiro e Jorah mal deve saber que ele existe.

Bran IV: A história do Último Herói é uma parte fundamental da série, a interpretação nortenha da profecia que move os Targaryen e os adoradores de R’hllor, então cada detalhe acaba sendo investigado pelos fãs. O que significa o cachorro do Último Herói, eu pensei enquanto Dotrice interpretava um dos poucos personagens da série mais velhos do que ele mesmo? Um lobo gigante literal, um dragão, um warg? Não. É um pedaço importante de uma história de terror, que é o que a Velha Nan está contando. O último e mais fiel companheiro, resistindo até o fim e morrendo para acentuar a solidão. É um pedaço da história, importante enquanto elemento narrativa, e nada mais. Não precisa ser nada mais.

Eddard V: Toda a conversa com Pycelle muda de figura quando a gente sabe que ele acelerou a morte de Jon Arryn. Mas, mais importante, ele também parece eliminar Cersei como suspeita da morte de Jon Arryn, pois ela estava viajando. É uma das primeiras peças do quebra-cabeça de quem matou Lorde Arryn e do porquê. AGOT costuma ser chamado de uma desconstrução dos épicos de fantasia, mas é também e igualmente uma desconstrução dos romances de detetive: Eddard tem peças suficientes para resolver o mistério, mas não consegue juntá-las; os leitores têm mais peças ainda, e também precisam de uma confissão no final do terceiro volume.

Jon IV: Em toda a galeria de piores pais e mães em ASOIAF, Randyll Tarly deve ficar em primeiro lugar. Hoster Tully estava em uma crise política, e casamentos arranjados são a norma cultural. Aerys II sofria de uma doença mental, Aegon IV era mais negligente do que proativo em sua ruindade. O mesmo vale, respectivamente, para Lysa Arryn e Robert Baratheon. Tywin Lannister é o único que se compara a Lorde Tarly, com Balon Greyjoy correndo por fora.

Eddard VI: Uma de minhas passagens favoritas dos livros, que explica todos os últimos dias de Jon Arryn, incompreensível para os personagens: The potboy, now cordwainer, had never exchanged so much as a word with Lord Jon, but he was full of oddments of kitchen gossip: the lord had been quarreling with the king, the lord only picked at his food, the lord was sending his boy to be fostered on Dragonstone, the lord had taken a great interest in the breeding of hunting hounds, the lord had visited a master armorer to commission a new suit of plate, wrought all in pale silver with a blue jasper falcon and a mother-of-pearl moon on the breast. The king’s own brother had gone with him to help choose the design, the potboy said. No, not Lord Renly, the other one, Lord Stannis.

Catelyn V: Que capítulo trágico. De todos os personagens que aparecem, apenas Bronn (que não é chamado por nome) não sofre alguma tragédia horrível. Ser Rodrik é traído e assassinado pelo Bastardo de Bolton, Catelyn pelos Freys, talvez um dos que encontra na estalagem. Tyrion é preso injustamente e exilado, Masha Heddle é enforcada por Tywin Lannister. Jason Mallister é prisioneiro no próprio castelo com o filho, Patrek. Yoren morre na estrada e Marillion, no Ninho da Águia. Ou talvez seja um capítulo menos trágico, já que o mesmo poderia ser dito de vários e vários outros.

Sansa II: Sansa assumiu uma identidade falsa e Littlefinger imagina que vai revelá-la com mantos de lobos e peixes, mas essas coisas são fáceis de falsificar. Sansa II, no entanto, gera uma informação e um indivíduo que poderia identificar Sansa única e exclusivamente: Sandor Clegane. Ninguém mais sabe como ele conseguiu seus ferimentos, que por sua vez o tornam facilmente identificável. Muita gente espera que o Cão reapareça na história lutando contra seu irmão zumbi na capital, mas se GRRM decidir trazê-lo de volta, eu apostaria antes em Sandor reaparecendo em um capítulo da Sansa, não da Cersei. Não que ele vá voltar à narrativa, a falsa morte e a nova vida religiosa são um fim perfeitamente adequado para o personagem.

Eddard VII: O grande mistério deste capítulo: Quem diabos aceitaria se tornar a terceira esposa de Ser Gregor Clegane?

Tyrion IV: Eu sempre soube que Os Três Patetas acompanham Catelyn Stark e Tyrion Lannister até o Ninho da Águia, mas nunca tinha prestado atenção no fato disso ir além dos nomes: Lharys é descrito como tendo tufos ruivos sob um elmo cônico, Kurleket tem cabelo raspado e cara de porco e Mohor tem cabelo de penico. Todos morrem, naturalmente.

Arya III: Yoren quebrou seus votos ao procurar Ned Stark? Parece que sim. Ele pode racionalizar como quiser, usando sua relação com Benjen como desculpa, mas ele claramente está tomando parte em um conflito. Em Westeros, é quase como ver uma líder de torcida fazendo sexo em um filme de terror.

Eddard VIII: “(…) Alguns segredos ficam mais seguros quando permanecem ocultos. Alguns segredos são perigosos demais para compartilhar, mesmo com aqueles que você ama e em que confia”, Ned reflete, logo depois de pensar sobre a fortaleza dos Targaryen. Em outras palavras: é por isso que ele nunca contou a verdade para Catelyn.

Catelyn VI: Lysa Arryn é uma boa paródia de Penélope, o que torna Littlefinger o melhor e pior Ulisses possível.

Eddard IX: Em algum momento fica confirmado que o próprio Baelish avisou Jaime onde ele estava levando Ned e Jory? Ou essa é uma das muitas traições apenas implícitas de Littlefinger?

Daenerys IV: Um dia todos os khals vão voltar para Vaes Dothrak, dizem as profecias. Com sorte, é o que acontecerá no final de TWOW. Mas eu devo ser a última pessoa do mundo que acha que Dany não precisa ir para Westeros imediatamente.

Bran V: Personagens absolutamente trágicos na releitura e que o leitor mal percebe na primeira vez: Kyra, que mal vale um parágrafo aqui.

Tyrion V: Uma das minhas frases favoritas sobre ASOIAF é que Victarion Greyjoy é o Stannis Baratheon do Universo Espelho: ambos são almirantes sérios e rígidos, irmãos do meio que se sentem rejeitados, mas Victarion é um idiota que se imagina grande estrategista, enquanto Stannis é um grande estrategista; Victarion não tem senso de humor, enquanto Stannis tem um discreto que ele raramente deixa aflorar. E Lysa Arryn é Victarion de saias: burra e manipulável, mas se acredita mestra do jogo, uma assassina que insiste sempre no seu status de vítima. Tyrion é magistral nesse capítulo, mas Lysa é, em certo sentido, um nêmese tão formidável no final dele quanto Mord foi no começo.

Eddard X: “Eu procurei vocês no Tridente”. Os calafrios que quem apenas assiste a série não conhece.

Catelyn VII: A história de Alyssa Arryn deve ser o foreshadowing mais macabro da série inteira, com Catelyn refletindo sobre todas as lágrimas que sua morte causará. Ou talvez GRRM estivesse apenas prevendo a reação dos telespectadores ao Casamento Vermelho.

Jon V: Um dos primeiros indícios de que Jon seria um excelente Lorde Comandante em tempo de paz: ele reconhece o valor da equipe além das habilidades marciais óbvias (Sam, auxiliar de meistre), fontes de influência importantes dentro da estrutura tradicional da Patrulha da Noite (Aemon) e entende que usar o poder significa criar inimigos (no caso, Chett, que será um dos líderes do motim). Por outro lado, são lições que ele não sabe usar quando está oficialmente no comando, quando passa a depender demais do poder formal e perde de vista a infraestrutura política que utiliza tão bem neste capítulo.

Tyrion VI: Os clãs do Vale são uma parte fascinante da composição étnica de Westeros. Eles são semelhantes aos clãs do norte e aos selvagens — costumes, política, sexualidade, divisão de gêneros, etc. — mas ocupam uma posição totalmente diferente na região. A avó de Ned Stark era membro de um dos clãs, mas seria impossível imaginar a casa mais chinfrim de todo o Vale casando um de seus filhos com um membro dos clãs. O resultado é que Jon Snow e Stannis Baratheon podem contar com os clãs como aliados no Norte, enquanto um invasor externo (no caso, Tyrion) vê em Shagga e Timmet e seus compatriotas a base de uma insurgência no Vale. Não sei se GRRM pensa nisso conscientemente, mas gosto de imaginar que a diferença está na etnia: os Starks e os nobres do Norte ainda são Primeiros Homens, enquanto a nobreza do Leste é composta de Ândalos.

Eddard XI: Essa é a única vez que vemos Ned sentado no trono?

Sansa III: Ainda estou convencido de que Sansa menstruou pela primeira vez neste capítulo, não naquele em ACOK (ou seria ASOS?) em que ela percebe o fato e tenta esconder.

Eddard XII: O capítulo em que Cersei tenta seduzir Ned e no qual mente até não poder mais sobre por que odeia Robert Baratheon. Entre os defensores da personagem, sempre um momento muito ignorado, mas que merece ser lido e relido para entender a criatura.

Daenerys V: “O homem que fora seu irmão”, repetida de novo e de novo à medida que a morte de Viserys III se aproxima. Que expressão terrível.

Eddard XIII: Littlefinger é mestre em falar a verdade para enganar, e sem dúvida nenhuma os Tyrells e Redwynes não querem Stannis no trono. Uma questão mais interessante é se ele está certo em sua análise do que Stannis pretende fazer após subir ao trono, e também se acredita no que está dizendo. Stannis é rígido e sem misericórdia, mas também não é o tipo de homem que confunde vingança com justiça. Ele provavelmente favoreceria os Florents em disputas na Campina, mas é difícil imaginar ele começando uma guerra contra seus ex-inimigos. Respondendo de maneira excessiva, sim; interpretando indiferença como insulto, com certeza; sendo estúpido, não.

Jon VI: Eu traduzi alguns livros da série infanto-juvenil dos Guardiões de Ga’Hoole, e o livro usa algumas referências discretas a ASOIAF: uma coruja chamada Pycelle, um conto que basicamente reelabora a vida de Rhaegar e a ideia do Príncipe Prometido. O juramento que os personagens fazem é muito semelhante ao da Patrulha da Noite, que Jon e Sam fazem pela primeira vez nesse capítulo: “Eu sou um Guardião de Ga’Hoole. Desta noite em diante, dedico a minha vida à proteção da raça das corujas. Não me desviarei do meu dever. Vou apoiar meus irmãos e irmãs Guardiões em tempos de batalha e em tempos de paz. Eu sou os olhos na noite, o silêncio no vento. Eu sou as garras que atravessam o fogo, o escudo que protege o inocente. Não vou querer usar uma coroa nem acumular glórias. Todas essas coisas eu juro pela minha honra como um Guardião de Ga’Hoole até que os meus dias nesta terra terminem. Que esse seja o meu juramento. Que essa seja a minha vida. Por Glaux, eu juro”. (Para deixar claro, o juramento foi responsabilidade de um dos tradutores anteriores, nem lembro qual.)

Eddard XIV: Muitos leitores culpam Sansa por falar com Cersei, mas a menina não forneceu nenhuma informação crucial que a rainha já não tinha ou de que precisava. Outro, Ned por não ser cínico e brutal com os Lannisters, mas esses simplesmente não entenderam o livro. Littlefinger é obviamente culpado, mas, nesse caso, também o escorpião nas costas do sapo. Um problema mais interessante é Renly, que tinha os as espadas e a capacidade de levá-las ao lugar certo, e que em retrospecto provavelmente teria se tornado rei em alguns anos se tivesse apenas um pouco de paciência. Mas, ah, esperar paciência de Renly seria como esperar imoralidade de Eddard Stark ou moralidade de Petyr Baelish. A natureza da tragédia está justamente em sua inevitabilidade.

Arya IV: Syrio lista vários animais fantásticos no bestiário de Braavos: zebras, girafas, capivaras… e velociraptors. Esse é o último, certo? Lagartos terríveis (deinos sauros) que caminham, com garras como foices. Melhor cidade, Braavos.

Sansa IV: Entre as inúmeras perguntas que eu faria a GRRM em uma entrevista: Quando escreveu este capítulo, ele já imaginava que traria Jeyne Poole de volta no futuro como “Arya Stark”? Colocá-la em um dos bordéis de Littlefinger foi uma maneira de ilustrar o destino ainda mais cruel de mulheres e meninas mais pobres na situação de Sansa, ou de guardar um personagem potencialmente útil para o futuro? Se ambos, qual foi a causa predominante?

Jon VII: Samwell Tarly, perícia criminal. Se os livros não tivessem dado certo, GRRM poderia ter arranjado um bom emprego na sala de roteiristas de CSI. Ou, com seu apreço por descrições de comida, Hannibal.

Bran VI: Dos muitos prazeres de ouvir o audiobook: Roy Dotrice dizendo “Hodor” na voz do personagem. Recomendo. E a descrição de Hodor passando horas em água quente quase me faz acreditar nas piadas sobre como Hodor é um dos inúmeros Targaryens secretos.

Daenerys VI: Creio que um erro frequente entre os leitores e espectadores é ver Drogo como um khal típico, um exemplo representativo de líder dothraki, quando muitos detalhes indicam que ele é uma criatura excepcional entre os Dothraki. Ele tem gostos e preferências inusitadas (vinho, monogamia), coragem para romper tradições sem desrespeitá-las (cruzar o oceano, matar Viserys), carisma que vai além de suas habilidades bélicas e mais. A acusação de orientalismo depende fundamentalmente da ideia de que o único khal que vemos representa todos os khals, quando o pouco que sabemos dele indica o contrário. Quando TWOW chegar, espero que o khal que Dany encontra no final de ADWD seja uma mediocridade que coloque a especificidade de Drogo enquanto personagem ainda mais em destaque.

Catelyn VIII: Manderlys! Como um leitor que adorou as cenas com Lord Manderly em ADWD, a presença proeminente de um bigodão nas cenas do Casamento Vermelho no seriado foi um momento de alegria naquele horror. “Sim, vamos ver White Harbor na quinta temporada!” Uma pena que Richard Griffiths morreu ano passado, teria sido ótimo.

Tyrion VII: Eu gostaria de sugerir que Eddard aprende a lidar com os clãs do norte ao observar a política desastrosa dos Arryns em sua adolescência, mas essa teoria tem um furo: sua avó materna vem do clã Flint das montanhas, o que sugere que os clãs do norte estão pacificados há décadas. Pela data, talvez seja algo que descobriremos na quarta novela de Dunk & Egg, mas um flashback em TWOW, com a presença redobrada dos clãs nas batalhas do norte, é talvez até mais provável.

Sansa V: De todos os erros não forçados que Cersei comete, de todas as provas claras de que ela não é a mestra da política que se imagina, algum é pior do que demitir Ser Barristan Selmy?

Eddard XV: Varys manda Ser Barristan para Dany. Manda Tyrion para Ilyrio. Será que Eddard era a versão 1.0 desse esquema?

Catelyn IX: O Casamento Vermelho é uma sequência magnífica, mas este é o melhor capítulo com Walder Frey. Espirituoso, matreiro, perspicaz, grosseiro, vulgar e, sem saber, revelando informações sobre o verdadeiro motivo da morte de Jon Arryn. Sem ler nenhum livro subsequente, talvez Lord Walder fosse um dos meus personagens secundários favoritos. Alas, alack.

Jon VIII: Lady Mormont mandou a espada de aço valiriano para o irmão na Muralha. Por quê? Porque queria que ele voltasse? Não é o estilo dela, achar que o irmão poderia fazê-lo. Honra? Nenhuma necessidade disso. Generosidade? Garra Longa vale uma fortuna, talvez o equivalente a uma boa parte do PIB da Ilha dos Ursos. Marge não é assim tão generosa. A resposta mais provável é “GRRM ainda não tinha criado essa parte da história direito”. Primeiros volumes de séries de livros são como primeiras temporadas de seriados, cheios de inconsistências e experimentos narrativos que não se concretizam. Lembrar disso é o que me impede de ser o Comic Book Guy 100% do tempo.

Daenerys VII: Um capítulo difícil de discutir em português sem um equivalente elegante para o termo inglês personhood. Se ao menos eu conhecesse um tradutor para me ajudar.

Tyrion VIII: Das tragédias de uma adaptação que depende da disponibilidade de atores: nada de Shagga na segunda temporada. O mundo precisa de mais Shagga.

Catelyn X: Lendo o capítulo, é difícil ver o quanto a vitória foi pírrica, mas as mortes de Daryn Hornwood e dos dois Karstark são tão fatídicas quanto o casamento com Jeyne Westerling, pois a primeira atiça as forças que ficaram no norte e cobiçam as propriedades dos Hornwood e as outras duas desestabilizam os Karstarks. Fica difícil entender por que Robb se cerca de guarda-costas tão nobres, até que consideramos as alternativas: soldados rasos fogem e mercenários trocam de lado, nenhum dos dois deveriam ficar perto do comandante; e a presença de lordes e herdeiros garante sua lealdade antes e durante a batalha.

Daenerys VIII: Dany pensa que Rhaegar morreu pela mulher que amava, algo que deve ter ouvido de Ser Willem Darry ou, mais provavelmente, do irmão. Seria interessante saber o que Viserys achava do irmão mais velho, do Torneio da Falsa Primavera e da Torre da Alegria.

Arya V: NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOooooooo…

Bran VII: A construção de mundos ficcionais é uma das minhas partes favoritas da ficção especulativa. Um dos muitos motivos pelos quais estou talvez mais animado com The World of Ice and Fire do que TWOW: historinhas sobre Symeons Star-Eyes, Florian e todas as lendas de Westeros, e também os Reis do Inverno e Lordes de Winterfell. São nomes neste capítulo, mas cada frasezinha sobre eles sugere uma miniatura a ser admirada.

Sansa VI: Sansa deseja que um herói atire Lord Slynt e corte sua cabeça. No livro cinco, Jon Snow faz exatamente isso. Se eu soubesse um pouco menos sobre a série, imaginaria que GRRM estava jogando com essa passagem, mas a verdade é que na versão original Jon enforcava Janos Slynt — e talvez até delegasse a tarefa, não lembro mais ao certo.

Daenerys IX: Khal Jhaqo, Dany jura neste capítulo, morrerá gritando. É o personagem que ela encontra no último capítulo de ADWD. A expectativa é uma das melhores partes da leitura.

Tyrion IX: Um dos membros do conselho de Tywin Lannister diz que apenas um imbecil trocaria Jaime Lannister por duas meninas, que é exatamente o que Catelyn faz no final de ACOK. Alguns leitores parecem concordar com essa avaliação. Mas, mas, mas: (1) Quando Catelyn faz a troca, Robb não tem mais herdeiros, enquanto aqui Bran e Rickon estão seguros em Winterfell; (2) Ser Addam Marbrand, que oferece essa crítica, é uma espécie de Jaime Lannister dos ligeiramente pobres, alguém pouco ligado em política e que não enxergaria instintiva e imediatamente o potencial de alianças de casamento com Sansa e Arya; (3) Família, Dever, Honra, nessa ordem — Catelyn acha que está salvando o pouco de família que tem no final de ACOK, absolutamente consciente do custo político-militar de suas ações, pois acha que é um preço que vale a pena ser pago. Se ela desse as filhas como perdidas e não tentasse salvá-las, Catelyn seria como Tywin Lannister neste capítulo, dando Jaime como perdido. E Tywin Lannister, não por acaso, é um dos vilões da história e acaba assassinado pelo próprio filho.

Jon IX: Em capítulos futuros, eu gostaria de ver Ser Jorah Mormont lembrando do pai. O pouco que vemos de Lord Jeor aqui e em outros capítulos dos três primeiros livros sugerem um bom pai, compreensivo e honesto, superado apenas por Ned dentro da narrativa como exemplo de paternidade.

Catelyn XI: Um personagem que falta na proclamação de independência do norte: Roose Bolton. Não teria sido realista em termos de movimentos de tropas e o risco de obviedade quando seu silêncio fosse mencionado seria grande, mas eu gostaria de ter visto essa participação.

Daenerys X: Repitam comigo: Daenerys não é imune ao fogo. Ela sobreviveu em um evento mágico e único, não por ter imunidade natural. Os Targaryens não são imunes ao fogo, sendo que vários morreram ou se feriram gravemente em incêndios e com fogo de dragão. Já perdi a conta de quantas vezes já vi essa confusão.

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4 Responses to A Game of Thrones, Capítulo por Capítulo

  1. Excelente, e concordo com quase toda a análise, sendo que várias coisas confesso que não tinham me passado pela cabeça.

    O único ponto maior que tenho de discordância aqui é sobre Daenerys ser ou não imune ao fogo. Pode que ela não seja naturalmente mesmo, mas não há indícios nos outros livros, pelo que me lembro. O que eu acredito é que ela seja sim. Não são todos os Targaryen que são imunes mesmo, mas como tivemos vários indícios nos livros e você mesmo falou, as regras do jogo mudaram. Dany foi quem nasceu com a magia, e a imunidade talvez faça parte dela, como o fato dela ser a mãe dos dragões. Ela mesma fala em vários momentos da magia dela, o que me faz entender que ela mesma acredita ser imune. Talvez isso esteja errado e venha a ser a própria ruína dela, mas gosto de pensar assim.

    A realidade é que não há indícios ainda que provam uma ou outra coisa.

    • Cisco Costa says:

      O GRRM já disse que ela não é imune, se bem lembro. E com certeza já vi o Elio Garcia dizer umas mil vezes que o evento foi único e não significa que ela é imune. Nesse ponto da interpretação do texto, terceirizo a questão para os dois alegremente. Fora isso, os fóruns do Westeros.org estão cheios de threads sobre o assunto.

      (Também: obrigado.)

  2. Missy says:

    Trono de Hierro a cargo de Daenerys Targaryen, quien asesorada por Tyrion Lannister lucharan contra su hermana, Cersei Lannister.

  3. Lucia Trejo says:

    Este livro conta uma história extraordinária, por isso quando soube que estrearia Game Of Thrones soube que devia vê-la. O livro é maravilhoso, faz um tempinho que o li, por que alguém me recomendou e adorei que fizeram a adaptação em serie. o último capitulo me deixou super intrigada, deixo aqui o link: http://br.hbomax.tv/serie/G… , aonde podem consultar o tempo faltante para a sua transmissão e isso é muito emocionante!

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