Uma Breve Explicação Econômica de Por Que a Prata da Casa Vale Mais que o Jogador Trazido de Fora

Qualquer fã de esporte coletivo conhece o fenômeno: os jogadores trazidos de outros clubes parecem ganhar um salário desproporcional a seu rendimento em campo, na quadra ou, no caso do polo aquático, imagino, na piscina. Como a maioria dos torcedores conhecem melhor a folha de pagamento do seu time do coração, não o da liga em geral, parece que é apenas o seu time que é incompetente e não sabe avaliar o talento alheio, ou que dado a maracutaias nas quais porcentagens de salários inflados são devolvidos por baixo dos panos. Na verdade, o problema é universal.

A explicação é simples e tem nome: A Maldição do Vencedor.

Um exemplo rápido para esclarecer o fenômeno: imagine que três times estão negociando o passe de um jogador hipotético chamado, digamos, João Baptista “Carruíra” Ferraretto, e cada um deles avalia sua contribuição potencial de maneira diferente:

  • O Corinthians acredita que Carruíra vale R$400.000,00 por mês para o clube.
  • O Botafogo acredita que Carruíra vale R$500.000,00 por mês para o clube.
  • O Grêmio acredita que Carruíra vale R$600.000,00 por mês para o clube.

Esses são os valores máximos que cada time pagaria pelo passe do jogador. O agente de Carruíra conversa com os três. O Corinthians oferece 350 mil, o Botafogo responde com uma oferta de 420 mil e o clube paulista sai do páreo. O Grêmio oferece 460 mil, o Botafogo responde com 490 mil e Carruíra fecha com o tricolor por 520 mil. Por esse valor, o Botafogo acha que estaria jogando 20 mil reais fora, mas o Grêmio acha que lucrou 80 mil na transação.

Encerrado o campeonato, uma avaliação objetiva do desempenho de Carruíra revela que ele valia mesmo era R$500.000 e que o Grêmio teria gastado melhor seu dinheiro com algum outro jogador, ou simplesmente guardado-o embaixo do colchão do Fábio Koff. É a Maldição do Vencedor. Repita esse processo com todos os jogadores que seu time trouxe de fora e você entende por que a folha de pagamento está inflada em relação ao número de faixas penduradas na parede da garagem do seu sogro.

No exemplo acima, a avaliação média dos compradores estava correta, mas não é a avaliação média ou a correta que vence o leilão. Quem leva o passe é, como não poderia deixar de ser, o lance mais alto. Por isso, em um mercado competitivo, os salários de jogadores e técnicos tenderiam a não corresponder ao produto marginal que de fato geram para o clube. Quando são plenamente racionais, os participantes dessas negociações levam em conta esse erro sistêmico e corrigem seus lances. Ainda não encontrei um dirigente plenamente racional.

Um pressuposto implícito do exemplo acima é que Carruíra vale o mesmo para os três times, ou seja, que seu valor enquanto jogador é objetivo. Mas o valor é subjetivo, como todo bom economista sabe desde o final do século XIX. Assim, é possível que na avaliação subjetiva do Grêmio, a transação ainda tenha valido a pena, ainda que o futebol jogado por Carruíra pudesse ser substituído gastando 500.000 reais com outro jogador. Por exemplo, eu casei com uma sobrinha-neta do verdadeiro Carruíra e garanto que minha vitória no leilão matrimonial não foi nada amaldiçoada (ou sobrinha-bisneta; nunca lembro da árvore genealógica).

Mesmo que nos concentremos apenas em medidas objetivas, entretanto, o valor do jogador não será o mesmo para todos os times. Cada jogador possui talentos específicos que se realizam melhor ou pior em determinados esquemas táticos, personalidades que chamam mais torcedores para o estádio em uma cultura ou outra e assim por diante. Para ficar com o exemplo mais óbvio, um bom atacante vale mais para o Corinthians do que para o Atlético Paranaense porque há mais corintianos do que atleticanos dispostos a comprar sua camiseta na lojinha do time.

Mesmo com esses poréns, a Maldição do Vencedor se mantém firme. Quem contrata o jogador é o técnico que o superestima o entrosamento, o cartola que sonha com vendas que não se realizam, o dirigente que está com medo de perder seu emprego. A Maldição do Vencedor é também a Maldição do Otimista.

O jogador saído dos juniores, em contraponto, ainda é relativamente desconhecido de outros clubes e sobreviveu à meritocracia sanguinolenta que é o futebol adolescente brasileiro. Mais ainda, ele provavelmente é inexperiente e, em média, representado por alguém que não sabe negociar tão bem quanto imagina. Para o clube, é uma bela oportunidade para pagar um salário irrisório em comparação à produtividade em campo e ainda vender seu passe para o exterior alguns anos depois, de preferência para um europeu amaldiçoado que vai superestimar seu valor.

[N.B.: Eu não sou economista e não entendo a matemática dos leilões. É possível, se não provável, que tenha cometido algum erro grosseiro que qualquer aluno de segundo semestre de Economia identificará imediatamente. Pior, devo ter cometido algum erro sutil e pernicioso que nem mesmo o Solon minha vasta horda de leitores identificará imediatamente. Intuição e diletantismo não substituem livros-texto de Economia.]

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