Por Uma Análise Probabilística da Rolling Stone

Richard Bradley, ex-editor da revista George e vítima de Stephen Glass, publicou um post questionando a veracidade da história de estupro coletivo na Universidade de Virgínia. O argumento de Bradley é mais ou menos o seguinte:

  • Tendo sido vítima de um jornalista que inventou os supostos fatos em suas matérias, ele aprendeu a reconhecer histórias falsas.
  • A história de Sabrina Rubin Erdely sobre o caso tem vários dos traços que levantam suas suspeitas, como falta de fontes que poderiam ser entrevistadas por outros jornalistas, detalhes “bons demais para confirmar” e corroboração de vieses dos leitores e editores.
  • Logo, a história tem probabilidade maior do que a média de ser falsa e merece investigações mais críticas.

Bradley não está afirmando nada sobre as mentiras de falsas vítimas estupro, um tema delicado e que não precisa ser discutido aqui. Ele está chamando a atenção para as mentiras perpetradas por jornalistas. Mas há um viés contrário que precisa ser considerado: a mesma história pessoal que torna Bradley mais atento a fraudes jornalísticas pode torná-lo mais apto a encontrar, digamos assim, pelo em ovo nas matérias alheias.

Em outras palavras, Bradley diz que aprendeu a evitar o erro tipo II (falso negativo), mas a mesma tendência pode levá-lo a cometer o erro tipo I (falso positivo) com mais frequência. Não que ele esteja necessariamente errado em questionar esse caso específico, claro. A única que essa história me ensina com certeza é que mais leitores, e mais editores, deveriam aplicar as ideias de Thomas Bayes às suas leituras.

P.S.: Bombardeada por críticas, especialmente uma matéria do WaPo, a Rolling Stone publicou uma nota de esclarecimento. A frase mais importante é a seguinte: “À luz das novas informações, agora parecem haver discrepâncias na narrativa de Jackie e chegamos à conclusão de que nossa confiança nela foi equivocada”. Minha esposa jornalista, ao ser informada sobre essa nota, diz: “Em outras palavras, ‘&%*$!’”.

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